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Pré-Seminário

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Acolhimento não é produto tóxico

Temas de reflexão: Nogueira, Braga. Economia humanista baseada no acolhimento. Lesados do BES. O funcionário e o dono do Banco. Offshores: uso e intenção. Sigilo profissional. Mãe: a discrição e o silêncio; refinada e cuidadosa cozinheira. Colaboração na paróquia. A irmã e os outros. Nozes de Nogueira. Crescimento de Braga: desatenções e desafios. Áreas pedonais. Oferta turística e igrejas fechadas. Cidade do barroco. André Soares. Além-Barroco. Giacometti e Henry Moore, Joan Miró. Bom Jesus. Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia. Universidade do Minho: investigação. Escola pública e vocação. Possibilidade de ser padre. Pastoral da Igreja e dimensão vocacional. Jovens e Seminários Diocesanos. Pré-Seminário. «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional.» Papa Francisco: Carta aos jovens. Vinde e vede. Já escutaste esta voz? Jorge Miguel na Assembleia Sinodal! Os jovens e o adiamento das decisões fundamentais. Utopias dos jovens de hoje.

Acolhimento não é produto tóxico

Acolhimento não é produto tóxico

Pré-Seminário

06 de Abril de 2017

Jorge Miguel Rodrigues
Grande Entrevista
 
Se alguém quisesse conhecer traços de personalidade que o Miguel Rodrigues pode partilhar de si mesmo, a que se candidataria na sua curiosidade sadia?
Sou um jovem de 21 anos natural da paróquia de Nogueira (S. João Batista) no arciprestado de Braga. Após ter concluído o ensino secundário e, depois de um caminho de discernimento, decidi ingressar no seminário maior de Braga que frequentei até ao 2ºano. No entanto, por motivos de discernimento e reflexão, interrompi essa estadia no seminário, embora continue a frequentar o curso de Teologia, atualmente no 3ºano. Caminho de discernimento que se iniciou no pré-seminário, tendo seguido durante o tempo no seminário, e neste momento, permanece na medida em continuo associado à Teologia e com acompanhamento espiritual por parte do seminário conciliar, de modo a compreender qual a minha verdadeira vocação. Assim, todo este caminho tem contribuído para uma descoberta mais aprofundada de mim próprio e da minha relação com Deus e do sentido que quero atribuir à minha vida, marcada pela tónica fundamental – Deus.

Terias perfil para gestor bancário? Em que tipo de economia humanista já começaste a investir? A que juro isso permite ganhar e com que prazo? Tens alguma garantia de que não é um ‘produto tóxico’?
O facto de a banca estender o seu raio de ação numa linha voltada para a matemática e economia, áreas pelas quais não assumo especial gosto, seriam motivações para não investir na profissão de gestor bancário. Essencialmente, tendo a investir numa economia humanista que se baseie no acolhimento. Acolhimento que se estenda não só numa linha de relacionamento pessoal, mas também a capacidade de acolher os dons e graças ofertados por Deus. O acto de acolher não tem uma taxa de juro fixa, será flutuante de acordo com as condições e a história de cada um, porém espera-se que não seja um produto tóxico, ou seja, um investimento de risco que possa conduzir a perdas relevantes. Pelo contrário, o investimento no acolhimento, embora com base numa esperança a longo prazo, poderá trazer ganhos avultados a nível humano, com uma taxa de amor bastante avultada, e não apenas algo residual.

Quando vês na televisão, ou em ruas de Braga, os protestos dos ‘lesados do BES’, que sentimentos experimentas?
Perante tais acontecimentos e verificando a natural insatisfação das pessoas que perderam suas poupança, depois de investirem o seu dinheiro em produtos de risco, o sentimento é de compaixão e compreensão da revolta que lhes assiste. Naturalmente, que foram as próprias pessoas, que de livre vontade, decidiram investir em produtos de risco, tais como ações e obrigações, que consoante as flutuações de mercado conduzem a ganhos ou perdas. Não obstante, muitos desses clientes investiram, por hipótese, sem terem plena consciência das condições desses investimentos e risco inerentes. Por conseguinte, é compreensível que essas pessoas se sintam, em parte, “enganadas” e desiludidas com o resultado negativo de algo que pensavam ser seguro e uma mais-valia. Porém, os meios jurídicos apresentam-se como solução para a resolução de tais situações e, pelo que é dado a perceber, terá sido possível um ponto de entendimento que não conduz a perdas totais. Porém, em atitude cristã o foco situa-se na oração, para que essas pessoas caminhem com perseverança.

Teu pai trabalha num banco. Não é necessário fazer publicidade, como se compreende. É uma vida fácil e altamente remunerada, como muitos pensam? Está sujeito ao stress profissional?
Existe um estereótipo muito marcado na sociedade que transporta a uma confusão entre o gestor bancário (funcionário do banco) e o banqueiro (dono do banco). Neste sentido, e como se compreende, o funcionário que trabalha no banco segue as regras e condições que lhe são impostas pelo seu patrão, tal como em qualquer outro serviço na sociedade que conceba a hierarquização patrão – funcionário. Deste modo, a própria remuneração não se assemelha ao que eventualmente aufere o banqueiro. Para além da questão remuneratória, é uma profissão muito exposta ao stress, tendo em conta que ocorre a pressão constante e avassaladora, por vezes de hora em hora com e-mails e telefonemas, para a venda de produtos e obtenção de resultados. O funcionário é estritamente valorizado pelos resultados e rácio que apresenta, não sendo valorizadas as suas atitudes ou méritos morais. Assim sendo, são momentos de muita pressão apenas voltados para a obtenção de resultados e cumprimento de objectivos. Digamos em modo de brincadeira que não será o local mais adequado para relaxar e passar umas férias.

Sem revelar o sigilo bancário, porque imagino que teu pai nem em conversas familiares falará sobre a conta de ninguém, que leituras fazes dos milhões que saem de Portugal para contas sediadas em offshores? Como interpretas a existência dos paraísos fiscais?
A questão dos offshores e paraísos fiscais pode ser vista a partir de duas ópticas distintas. Neste sentido, pode-se considerar os offshores como algo mau, na medida em que é um modo de fuga aos impostos do país de origem. Por outro lado, nem sempre isto se verifica e, tais mecanismos são importantes para pagamentos entre empresas internacionais, estando previsto na lei essa possibilidade. O maior perigo fixa-se no uso que as pessoas dão a este mecanismo, pois como é possível extrair vantagens deste facto, muitos são tentados a dar um mau uso a este instrumento utilizando-o para lavagem de dinheiro. Assim, como em muitas coisas na vida, a questão dos offshores depende do uso e com intenção com que se utiliza.

Herdaste do teu pai, nomeadamente do escrupuloso respeito pelo sigilo profissional, a delicadeza sobre a forma como se fala da vida das pessoas e dos seus bens? Que outros valores prezas nele?
Certamente que, melhor do que a delicadeza a falar da vida das pessoas e seus bens, é não tecer considerações sobre tais questões, não obstante, manifestam-se casos em que é inevitável, e certamente que, nesses casos, primo pelo trato e abordagem delicada e recôndita, tal como foi transmitido por meu pai. Entre outros valores, prezo nele a honra e o valor da palavra. Na sociedade actual, em que tudo se diz e desdiz em frações de segundo, é importante recuperar o antigo valor da “palavra dada”, de modo que seja possível confiar em determinada afirmação indicada por outrem. Como tal, destacava como principal esse valor que fez questão de evidenciar na educação transmitida a mim e à minha irmã.

Tua mãe é, para quem a vê com atenção, uma senhora discretíssima de elevada dignidade, que ganha mais esplendor no seu silêncio público, tão denso da sua presença e da família. Que outras qualidades aprecias nela e na forma como vos educa, a ti e tua irmã?
De facto, minha mãe preza pela discrição e observação atenta, porém silenciosa, do espaço envolvente. Nessa sua forma de estar tão característica, transmite sem dúvida, os valores da ponderação e o estar delicado em sociedade. Apresenta ainda, um cuidado especial no trato com as pessoas, primando pela escuta atenta e resposta concisa e pertinaz. Na educação, dada a mim e à minha irmã, preza essencialmente pela transmissão dessa simplicidade no estar e no conversar, a sermos concretos e objetivos, manifestando a nossa opinião de forma sempre educada e com respeito pela opinião do outro interlocutor.

Será ela uma das melhores cozinheirasde Braga? Gostas das comidas bem temperadas? Que dizes ao uso do alho? E da malagueta? Qual é o prato que mais aprecias?
Não querendo ‘desfazer’ todas as cozinheiras bracarenses, especialmente sábias e afectuosas na confecção cuidada e saborosa dos alimentos, devo considerar minha mãe como uma refinada e cuidadosa cozinheira. Seus pratos e temperos são para mim irresistíveis, porém o uso da malagueta é algo que peço que ela dispense, pois não aprecio o sabor do picante. Não obstante, a utilização do alho, ervas aromáticas variadas, do azeite, entre outros elementos são em dose certa para que se extraia de cada alimento o melhor e mais saboroso palato. São vários os pratos que aprecio, mas poderia selecionar, no campo dos peixes, um bom bacalhau com natas ou o famoso bacalhau à Braga; e, na área das carnes, o especial apreço pela posta barrosã ou uma bela vitela assada.

Teu pai, além do trabalho profissional e da vida familiar, encontra tempo e vontade para ser colaborador na paróquia? Em que áreas ele se compromete de forma corresponsável?
Durante quase dois mandatos meu pai teve a oportunidade de colaborar na paróquia, concretamente no Conselho Económico Paroquial e estar envolvido em toda a orgânica paroquial. Após esse serviço, que prestou durante algum tempo, foca-se neste momento na missão que tem enquanto presidente da Sociedade S. Vicente de Paulo na arquidiocese de Braga. Trata-se de um serviço exigente, com a necessidade de máxima entrega, mas que o realiza com a maior e melhor das vontades, sempre com o objetivo da caridade e dádiva por aqueles que passam diversas dificuldades.

Do mesmo sangue, tua irmã cresce como uma mulher que, delicadamente, se forma. A diferença de idade faz com que ela cresça com outras referências diferentes das tuas? Qual te parece ser a melhor qualidade espiritual que ela cuida e, não obstante a familiaridade, te surpreende?
Minha irmã, actualmente no 9º. ano de escolaridade, ou seja, com 15 anos de idade vive circunstâncias um pouco diferentes das que eu vivi, pois, como se compreende, verificam-se actualizações e mudanças tanto na sociedade como na forma de actuar e experienciar as diversas realidades. Para além de ser uma pessoa muito sociável e que se integra bem no âmbito social, surpreende-me o cuidado que manifesta pelo bem-estar dos outros. Neste sentido, vai cultivando uma atenção e cuidado para não se fixar egocentricamente, mas que se alarga numa dinâmica de preocupação e caridade para com os outros.

És natural de Nogueira, uma paróquia da periferia urbana de Braga. Que ‘pedras’ atiram à Nogueira quando tem nozes? Quais são os valores que identificas como mais fortes nos nogueirenses?
Nogueira é uma paróquia da periferia urbana de Braga que sofreu uma grande evolução e desenvolvimento na última década. Trata-se de uma paróquia com cerca de 9000 habitantes e que possui na sua área os mais vastos e essenciais serviços para uma qualidade de vida bastante acentuada. A noz caracteriza-se por um fruto seco com apenas uma semente, neste sentido os nogueirenses podem assemelhar-se à noz, na medida em que cada um é semente com a potencialidade de germinar e serem bastantes nutritivos. Com efeito, como valor mais forte colocava a esperança e a vontade que cada um tem de ser fonte de energia para o resto da sociedade.

Como aprecias o crescimento de Braga, nomeadamente na forma como se expandiu para as freguesias rurais? Parece-te que a cidade cresceu de forma equilibrada? Ou, devido à especulação imobiliária, por exemplo, acabou por desatender a dimensões fundamentais? Que teria sido importante investir? Que pode ainda ser acautelado?
Verificou-se ao longo dos anos um grande desenvolvimento e mudança na paisagem urbanística de Braga e das freguesias mais periféricas. No entanto, esse crescimento foi muito volumoso em termos de quantidade, porém, não foi organizado e não respeitou as normas de organização do território. A partir da enorme especulação imobiliária gerada, apenas se centraram atenções no “betão”, não tendo sido valorizados e devidamente acautelados os espaços naturais. Ao invés de serem construídos prédios atrás de prédios, teria sido importante valorizar os espaços envolventes e enaltecer dimensões como circuitos pedonais, ciclovias, entre outros. Será pertinente que estas questões sejam acauteladas para um futuro desenvolvimento de freguesias que ainda são mais rurais. Será importante deixar espaço para o verde se expressar no meio da paisagem, de modo que este não se veja eliminado pela pretensão da construção desmedida.

No centro, a cidade ganhou muitas áreas pedonais. Que valores isso desenvolve? Quais são as dificuldades que podem sentir os residentes?
Deve-se saudar com agrado o particular investimento em áreas pedonais, de modo que estas estimulam a prática de exercício físico, permitem a caminhada sem o barulho e poluição dos automóveis, para além de poder promover um maior relacionamento social. No entanto, para os residentes, pode ser problemático devido ao ruído gerado pelas pessoas na rua, principalmente em horas mais tardias. Por conseguinte, e para que todos possam viver com tranquilidade e serenidade, cabe às organizações oficiais estipular regulamentação adequada de modo a prevenir comportamentos mais desadequados por parte dos transeuntes.

A cidade está a regenerar-se no centro histórico, com fortes investimentos na restauração e na reabilitação de casas devolutas. Qual é a avaliação que fazes da qualidade da oferta turística, nomeadamente da restauração, do património e dos museus? Que dizes das igrejas fechadas? E dos jardins?
Braga assume-se cada vez mais como uma cidade muito voltada para o turismo e que retira dividendos acentuados dessa prática. Para tal, contribui de forma incalculável todo o turismo religioso manifestado na diversa oferta em termos de igrejas, basílicas e museus. O património evidenciado em toda a cidade é riquíssimo e muito atrativo para os turistas. Pertence-nos uma gastronomia fantástica, à semelhança de inúmeros pontos do nosso país, que alicia e preenche com qualidade os estômagos famintos dos turistas. Torna-se essencial a valorização do centro histórico e a sua renovação, de modo que este se torne cada vez mais belo. E salientar o esforço pela criação de zonas verdes e a preocupação em preservar os diversos jardins que dispomos, pois dão à cidade outro brilho e encanto. Como ponto desfavorável apresenta-se o facto de algumas igrejas permanecerem com as portas cerradas, o que impossibilita a contemplação por parte dos turistas de tão belo e grandioso património. Não obstante, as instituições responsáveis devem realizar uma reflexão acerca desta realidade e perceber as dificuldades que impedem a abertura das portas e o acolhimento dos mais curiosos que, para além do ponto de vista estético e cultural, podem pretender orar e encontrar-se com o Senhor.

Braga é conhecida por ser uma ‘Cidade do Barroco’ e a ‘Roma Portuguesa’. Aprecias as construções do arquiteto André Soares? Que dizes do Palácio do Raio? E a frontaria dos Congregados?
Braga está repleta de grandiosas construções que fascinam até os mais distraídos e incólumes face a tamanha arquitectura. André Soares, famoso arquitecto bracarense, estende a sua obra com base em estilos como o Barroco e o Rococó. Deste modo, este estilo abrange duas das suas maiores obras, a saber: a fachada da Capela de Santa Maria Madalena na Falperra e o Palácio do Raio. Assim, o Palácio do Raio baseado num estilo barroco, apresenta de forma inequívoca uma exuberante decoração, algo perceptível na ornamentação da porta principal e das onze janelas perceptíveis na fachada. Todas as ornamentações dão ao edifício uma dinâmica muito acentuada e característica do seu autor. A frontaria dos Congregados, também ela marcada pelo barroco e obra de André Soares foi iniciada no séc. XVI. A sua fachada é também compreendida numa rica ornamentação com a divisão realizada por pilastras e largas cornijas. Ainda na sua frente verificam-se as imagens de S. Filipe Nery e S. Martinho de Dume içadas já na segunda metade do séc. XX.

Terão os bracarenses ficado ‘prisioneiros’ do barroco? Há mais vida para além deste estilo? Que sinais te dizem que é possível suplantar os sucedâneos barrocos, no recurso às linguagens contemporâneas? Gostas do novo estádio do Braga e da reabilitação do antigo Mercado do Carandá? Quanto à nova arquitetura religiosa, que tens a dizer?
Como é evidente, o barroco marcou de forma inequívoca uma grande parte da construção e edificação arquitectónica em Braga. Não obstante, cada época apresenta um estilo arquitectónico muito característico, influenciado por variados factores. Deste modo, é compreensível e normal que na contemporaneidade surjam novos estilos e novas linguagens. Neste sentido, o novo estádio do Braga assume-se como elemento arquitectónico sobejamente reconhecido na Europa e no Mundo pela sua apresentação arrojada e única. O mesmo se verifica com a reabilitação do antigo mercado do Carandá, que veio suscitar e proporcionar uma faceta cultural muito importante na cidade. Mais recente, no âmbito da arquitectura religiosa, saliento a Capela Árvore da Vida, e, mais recente, a Capela Imaculada no Seminário Menor de Braga que se afirma com delicadeza, classe e linguagem muito apelativa no seio de uma cidade ainda muito marcada pelo Barroco. Neste sentido, a linguagem e recursos utilizados na reedificação da Capela da Imaculada oferecem-nos uma verdadeira contemplação e compreensão dos reais mistérios da fé.

No campo das artes, quais são os artistas que mais aprecias? Gostas das esculturas de Giacometti e Henry  Moore, por exemplo? Haveria praças em Braga para obras de tal alcance? As pinturas de Joan Miró, se fosse possível virem para Braga, onde poderiam ficar expostas?
Aprecio artistas como Michelangelo, Donatello e Gian Lorenzo Bernini. Certamente que as esculturas de Alberto Giacometti são de facto inspiradoras, pelo facto de dar protagonismo à figura humana e a visão original do corpo humano. A sua caracterização de volumes e formas muito próprias de uma influência existencialista seriam arrojados e provocantes (em sentido positivo) nas praças desta cidade. Relativamente a Henry Moore, que remonta dentro de uma tradição associada a Michelangelo, expressou-se por uma visão humanista e orgânica. A sua obra tridimensional certamente enriqueceria e suscitaria a algum processo mental de abstracção por parte dos transeuntes. Em relação às pinturas de Joan Miró, seria uma honra albergá-las na cidade de Braga, sendo que o Palácio do Raio seria o local mais emblemático e, na minha ótica, o mais apropriado para as apresentar ao público.

Como vives a espiritualidade do Santuário do Bom Jesus do Monte? Faz ainda sentido explorar as fontes dos sentidos? E as das virtudes? Com um escadório? Como avalias a candidatura a Património Mundial da UNESCO? De que modo se poderia potenciar o turismo religioso?
O Santuário do Bom Jesus do Monte, pela sua dimensão e espiritualidade inerente apresenta-se como local primordial de encontro com Deus. Todo o aspecto natural envolvente, a paisagem, a arte exposta direccionam o nosso olhar para o mais profundo escondido em cada recanto. Toda a espiritualidade em torno do escadaria, através da fonte dos sentidos e das virtudes teologais impelem-nos a uma renovação interior, a desenvolver a nossa mortificação interior, de modo que purificados nos coloquemos mais predispostos ao amor. O próprio caminhar em subida, com alguma dificuldade física inerente, transportam para a nossa caminhada enquanto cristãos a superação necessária até Deus. A candidatura a Património Mundial da UNESCO é um merecido reconhecimento que, esperemos que seja concedido ao Santuário do Bom Jesus do Monte, pois, afirma-se em Braga, com grande esplendor no âmbito do turismo religioso. Turismo religioso que poderá ser potenciado exatamente pela exploração dos sentidos. Não obstante a crença de cada turista, o apelo aos sentidos poderá provocar alguma transformação no interior de cada humano, pelo que esse apelo poderá conduzir a uma vivência mais afectuosa e não tanto exclusivamente material de cada elemento.

Não muito longe, aos pés do Bom Jesus, encontra-se o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia. Parece-te importante investir neste sector das ciências?
Certamente que o investimento no sector das ciências e investigação é importantíssimo para o desenvolvimento da sociedade e de todo o país. Toda a cultura se influencia, também, pelos avanços científicos, pelo que é muito útil a sucessão de constante evolução e renovação. De realçar ainda, as vantagens e os sucessos que tais investigações podem proporcionar para as áreas da saúde, engenharias, entre outras.

Como aprecias os muitos prémios com que os investigadores da Universidade do Minho têm sido distinguidos nos últimos anos?
Significa um privilégio para todos os bracarenses o facto de estar sediada em Braga uma das melhores universidades do país e da Europa. Congratulo-me por verificar que é dada a oportunidade a investigadores jovens e, por outro lado, se verifica o interesse de diversos investigadores quererem trabalhar na Universidade do Minho. Deste modo, esse premiar do trabalho realizado na UM transporta um prestígio muito significativo para toda a cidade.

Que escola frequentaste durante o secundário? A escola pública oferece a possibilidade de discernir a vocação em termos de opção fundamental de vida?
Frequentei o ensino secundário na escola secundária Alberto Sampaio em Braga na qual realizei o curso de Ciências e Tecnologias. Nesse percurso de três anos fui-me apercebendo de como é fácil distrairmo-nos com diferentes acessórios e esquecermos um dos grandes motivos pelos quais estamos a estudar – perceber qual a área de formação universitária em que melhor me insiro, mas também a vocação para a minha vida. Nesta escolha do curso universitário a escola favorece todo o tipo de condições para que seja uma escolha bem alicerçada, porém não deixa de ser uma escolha para algo que eu tenho jeito para fazer. Se colocarmos no plano da vocação como opção fundamental de vida, a escola já não abre tantos caminhos, e aqueles que vão surgindo inclinam-se a ser um pouco tendenciosos e baseados em falsas convicções, suscitando apenas uma bela aparência. Neste sentido, é necessário ter coragem de fazer um percurso sério sem esquecer a primeira vocação à qual somos chamados – à vida – e realizar um trajecto que a dignifique mesmo tendo em conta os obstáculos que vão surgindo.
 
Quando começou a despertar a tua decisão vocacional? Que pessoas contribuíram para colocar no horizonte a possibilidade de um dia vires a ser ordenado padre?
A minha decisão vocacional começou a suscitar-se num retiro de três dias em Soutelo, realizando exercícios espirituais de Sto. Inácio. Através de um convite de dois amigos, esse espaço mostrou-se fundamental para tomar a decisão de começar a frequentar o pré-seminário. Também contribuiu muito a envolvência que fui tendo na paróquia ao fazer catequese, a participar num grupo de jovens e posteriormente no grupo de acólitos, tornando-se este ambiente paroquial muito propício ao reconhecimento da importância da comunidade e a compreender que me enquadrava naquele meio, sentia que estava ajudar e a enriquecer a caminhada de outros, mas também a estruturar o meu próprio caminho. Porém, o factor mais fulcral para a minha vocação foi o seio familiar, pois aí encontrei sempre toda a abertura de diálogo, compreensão, exemplo e testemunho essenciais para me disponibilizar a um período de discernimento.

Como apreciaram os colegas de escola a tua decisão? E os teus familiares, pároco e outros agentes da pastoral da paróquia?
Numa fase inicial os colegas de escola ficaram surpreendidos e demonstraram a sua não concordância com a opção, porém, depois de ter demonstrado que de facto entendia que nessa fase essa seria a opção correta para o meu caminho, todos compreenderam e respeitaram a decisão. Relativamente aos familiares foram abarcados por grande surpresa, mas também uma enorme alegria dando sempre todo o apoio e motivação para seguir em frente. Na pastoral paroquial as reacções foram todas muito positivas, tendo sentido um enorme carinho das pessoas mais próximas.
 
Consideras que a pastoral da Igreja tem clara a dimensão vocacional? Sentiste essa clareza no teu percurso? Como se pode potenciar?
Considero que a Igreja já compreendeu que tem de apostar fortemente na pastoral vocacional. As vocações, sejam para o sacerdócio, consagrados/(as) ou para o matrimónio, têm de ser apoiadas e esclarecidas. Só posso aderir a um projeto se o conhecer e considerar que se enquadra comigo e que vai de encontro à vontade que Deus tem para mim. De facto, no meu percurso, numa fase inicial, não sabia muito bem onde me dirigir, mas prontamente fui esclarecido por um sacerdote amigo. A partir do momento em que tive a primeira reunião com a equipa formadora do seminário e decidi iniciar o pré-seminário, senti todo o apoio e confiança de que o caminho também fazia sentido por aqui. Assim, a forma de potenciar, tem de partir exactamente por este contacto próximo entre o seminário e os jovens de cada paróquia, de modo a que estes conheçam a realidade do seminário, estando disponíveis a realizar um aprofundado discernimento vocacional, mesmo que, num determinado momento, este não se enquadre na vocação ao sacerdócio.
Também nesta minha fase de especial discernimento, tenho sentido todo o apoio por parte do seminário que acima de tudo, quer formar jovens para o futuro, de modo que estes sejam realmente boas pessoas que espelhem os valores cristãos, sempre na vocação que corresponder a cada um ao longo da vida.
 
Que ideia tinhas e, agora, tens do Seminário? Que perceção têm os jovens dos Seminários Arquidiocesanos?
Em primeiro lugar considero que a maioria dos jovens não tem ideia do seminário, pois esse facto nem lhes é colocado na sua descoberta vocacional. Deste modo, aquilo que pensam saber fixa-se no que ouvem de algumas pessoas que, porventura, contam como era outrora a realidade do seminário e de um seminarista. Tal facto tende a originar ideias erradas, tais como pensar que o seminário é local fechado, em que só se pode sair para a faculdade; os seminaristas passam todo o dia a rezar e a estudar, entre outras… Claro que existem regras, extremamente necessárias para a vida comunitária, porém é acima de tudo um espaço aberto, onde habitam jovens normais, com todos os seus gostos e vicissitudes da idade. Há um tempo para tudo, para orar, estudar, mas também para o divertimento.
 
Durante quanto tempo frequentaste o Pré-Seminário? Que ideias tinhas? Aconselharias a um colega teu? Porquê?
Frequentei o pré-seminário durante cerca de dois anos através de encontros mensais que eram proporcionados no seminário, e vinha um pouco com a ideia de que seria o momento indicado para conhecer a vida no seminário. Porém, depressa me apercebi que era mais do que isso... É o tempo e o espaço favorável, para além da descoberta da vida no seminário, de realizar um verdadeiro discernimento da vocação, mesmo que essa não vá num determinado momento na linha do sacerdócio. Através da oração, comunhão e partilha que é efectuada permite um maior conhecimento de nós próprios e da nossa relação com Deus e com outros. Assim, por este motivo aconselho o Pré-seminário àqueles que de facto queiram caminhar e aprofundar o seu modo de viver e estar no mundo, sempre com muitas dúvidas, mas estas não podem ser impedimento, devem-nos, pelo contrário, conduzir a uma confiança inabalável, associando-nos ao projeto que Deus tem para todos e cada um de nós.

O que mais valorizas do Pré-Seminário? O que seria bom desenvolver?
O que mais valorizo é a proximidade que é estabelecida entre todos. Cada pessoa é respeitada nas suas próprias características e na sua forma de ser. A interioridade a que somos chamados nestes encontros é fundamental para que, fortalecidos no interior, possamos partilhar essa força com os outros. Acima de tudo, é continuar a desenvolver este espírito de verdadeira família de seminário, para que de forma coesa todos possam caminhar sem se sentirem afastados do caminho que estão a trilhar.
 
Os Seminários Arquidiocesanos parecem-te próximos da comunidade diocesana?
Apesar da Semana dos Seminários e das Semana das Vocações se realizarem sempre em arciprestados diferentes, a Arquidiocese de Braga é muito extensa e por isso não é fácil que a informação e a proximidade cheguem a todas as comunidades crentes. Porém, tem sido feito um grande esforço para que o seminário chegue próximo das comunidades paroquiais, de modo a elucidar corretamente os jovens das suas potencialidades enquanto comunidade. O mesmo se exemplifica por este site em que estão contidas esta e outras entrevistas, para além de outros elementos que favorecem a descoberta e elucidação deste modo de vida. Por outro lado, também é necessária uma atitude pró-ativa e de descoberta por parte das comunidades paroquiais e dos seus párocos, para que desta forma seja mais fácil o diálogo e o encontro das comunidades paroquiais com os Seminários Arquidiocesanos.

A XV Assembleia Geral ordinária do Sínodo dos Bispos, que se realizará em outubro de 2018, tem como tema: «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional». Parece-te importante refletir sobre este tema? Porquê?
Este tema é essencial ser abordado no seio da Igreja, pois um aspecto muito marcante da contemporaneidade é a indecisão e a pouca consciência de que cada um é chamado a determinada vocação. Manifesta-se como essencial que os jovens reflictam relativamente ao mundo que os rodeia, a fé e a vocação. Deste modo, é importante que a Igreja reflicta relativamente aos modos de estes conceitos se tornarem mais próximos, e façam parte da vida dos jovens, para que munidos de vários aspectos possam decidir em conformidade e segundo a vontade de Deus. Assim, abordar tais temáticas poderá ter a capacidade de mover algumas consciências.

Como sabes o Papa Francisco escreveu uma Carta aos jovens, por ocasião do lançamento do documento preparatório. Nela ele escreve o seguinte: «Vêm-me à mente as palavras que Deus dirigiu a Abraão: «Sai da tua terra, deixa a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar!» (Gn 12, 1). Hoje estas palavras são dirigidas também a vós: são palavras de um Pai que vos convida a “sair” a fim de vos lançardes em direção de um futuro desconhecido, mas portador de realizações seguras, ao encontro do qual Ele mesmo vos acompanha. Convido-vos a ouvir a voz de Deus que ressoa nos vossos corações através do sopro do Espírito Santo.» Sentes que estas palavras também foram escritas para ti?
Foram escritas para mim e todos os jovens, pois num processo de discernimento vocacional, seja qual for o caminho, é necessário um êxodo interior, um dar-se com generosidade e confiança. A voz de Deus vai ressoando ao longo do caminhar e, para a reconhecer, é necessário um caminho de atenção aos pequenos sinais e sentimentos que vamos pressentindo. Como tal, o principal intuito é fortalecer a confiança numa certa direção, e com confiança, avançar naquele caminho em que se possa dar com maior generosidade. O meu caminho tem sido de compreensão da vocação em que posso aderir com maior generosidade, ou seja, um percurso complexo mas que vai sendo alicerçado e construído passo a passo até ao momento em que a confiança me há-de interpelar a uma opção vocacional.

Noutro parágrafo, o Papa escreve, a propósito do evangelho da vocação, com firme convicção: «Desejo recordar-vos também as palavras que certo dia Jesus dirigiu aos discípulos, que lhe perguntavam: “Rabi, onde moras?”. Ele respondeu: “Vinde e vede!” (cf. Jo 1, 38-39). Jesus dirige o seu olhar também a vós, convidando-vos a caminhar com Ele. Caríssimos jovens, encontrastes este olhar? Ouvistes esta voz? Sentistes este impulso a pôr-vos a caminho? Estou convicto de que, não obstante a confusão e o atordoamento deem a impressão de reinar no mundo, este apelo continua a ressoar no vosso espírito para o abrir à alegria completa. Isto será possível na medida em que, inclusive através do acompanhamento de guias especializados, souberdes empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projeto de Deus na vossa vida. Mesmo quando o vosso caminho estiver marcado pela precariedade e pela queda, Deus rico de misericórdia estende a sua mão para vos erguer.» Estas perguntas ‘franciscanas’ fazem algum sentido? E a sua convicção parece-te fundamentada?
Durante toda a nossa vida estamos expostos à dúvida e a momentos de queda e fracasso. Circunstâncias em que apenas nos fixamos simplesmente no próprio “eu” e esquecemos tudo o que acontece ao nosso redor. Nestes momentos o caminho torna-se opaco, parece que nenhuma luz se pode vislumbrar no firmamento. O acompanhamento com algum guia pode ser fundamental para ajudar e dar impulso a que a própria pessoa faça um caminho interior de desconstrução de si, na medida em estará disponível a dar-se no futuro independente da vocação em que se direcionar. A voz continua a chamar e torna-se necessário desvendar o seu significado e interpretá-lo, mesmo que, ela, por vezes, parece muito distante. Por conseguinte, o apelo é claro: “Vinde e vede!”. Deste modo, é necessário conhecer o caminho para depois haver confiança e aderir a ele com toda a generosidade possível.

Agora, imagina-te convidado para a assembleia sinodal. De forma serena e sincera, que desafios gostarias de propor à reflexão dos Bispos e do Papa, em teu nome e, se te imaginas seu intérprete, dos jovens de Nogueira?
Não é fácil ter uma resposta concreta para esta questão, mas sentir-me-ia tentado a proporcionar a reflexão no sentido do encontro que a Igreja está a proporcionar com os jovens, ou seja: Colocamos pés ao caminho e vamos ter com os jovens? Nos seus meios e ambientes? Somos voz activa quando as dificuldades lhes surgem? Ou apenas estamos à espera que eles apareçam e aí “enchemo-los” de doutrinas e conceitos predefinidos? Damos espaço à liberdade de pensamento e reflexão por parte dos jovens? Ou ficamos apenas retidos em tradições já ressequidas pelo tempo? Estaremos a dar, corretamente, voz aos jovens?

Em teu entender, porque os jovens adiam cada vez mais as decisões fundamentais?
Verifica-se na sociedade actual um grande receio pelo compromisso. Actualmente, os jovens sentem que qualquer decisão fundamental de vida lhes vai retirar algo importante do seu próprio ser e da sua liberdade. Existe um medo tremendo de se abrir perante o desconhecido e abraçar um projecto que implica uma doação verdadeira a outra pessoa ou a um conjunto alargado de pessoas. Como tal, a prioridade volta-se para a carreira profissional e só mais tarde surge a ideia de assumir uma decisão diferente para a vida. As prioridades mudaram e, atualmente, já não se vive um ideal tradicional de casar cedo e ter filhos de imediato. Pelo contrário, a mentalidade tende a fixar-se num carpe diem, na medida em que cada um quer experimentar e viver com liberdade todas as realidades que a vida proporciona. Ainda não existe a consciência de que a tomada de uma decisão fundamental não significa perda de liberdade, mas apenas um acréscimo de responsabilidade e dádiva.

Quais são as utopias dos jovens de hoje? Podem desejar-se no seio da Igreja? E no âmbito daquilo que Jesus de Nazaré praticou e ensinou?
As maiores utopias dos jovens são a auto-idolatria, o ego e o pensar que podem agir como “pequenos deuses”. A Igreja pode ter um papel fundamental, na medida em que acolhendo estas questões possa ajudar e colaborar na sua desconstrução, permitindo um olhar diferente sobre a vida e a realidade. Também Jesus deu de si, inclusive, deu a sua vida porque confiou e acolheu com generosidade a vontade do Pai. Todo o processo de conversão, que acompanha a vida cristã, trata-se de um voltar-se para a pessoa certa, ou seja, para Deus. Por conseguinte, Jesus ensinou e praticou isso durante toda a sua vida, tendo alertado para a necessidade de conversão por parte de todos os cristãos. Também os jovens não escapam a este apelo e a Igreja tem o dever de se aproximar e proporcionar momentos de verdadeira reflexão e consciência interior.
 
Que mensagem deixarias a quem ler esta grande entrevista, a propósito do discernimento vocacional?
Atrevam-se a conhecer o trabalho realizado no seminário, atrevam-se a tomar decisões e confiar no chamamento de Deus. Sejam rebeldes decifrando com ousadia e responsabilidade o vosso caminho. Não se deixem bloquear pela dúvida, pois esta surge no caminho para qualquer vocação e só confiando e acreditando é possível descobrir o chamamento que Deus nos propõe.

Pré-Seminário Jovem/Adulto