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Faz sentido, faz mesmo!

Temas de reflexão: Tornar-se jovem, viajar e vimaranensidade. Família, meu porto seguro. Obra Social do Sagrado Coração de Maria e discernimento vocacional. Pastoral paroquial e Juvenil em Guimarães. Opção de vida no projeto catequético e pastoral da Igreja. Jovens: ver o Seminário e Pré-Seminário com lentes novas. Itinerância e proximidade. Vocação ao matrimónio e namoro. O batismo das crianças e as qualidades da Susana. Ligar os pontos na pastoral vocacional e dos jovens. Onde estão os jovens? As coisas podem mudar? Jovens: Perder tempo não é opção. Diante de quem Jesus fracassa. Faz sentido.

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Faz sentido, faz mesmo!

Pré-Seminário

21 de Maio de 2017

Fábio Pereira

Grande Entrevista



Tornar-se jovem, viajar e vimaranensidade

Que tipo de Jovem é o Fábio Pereira? Como te tornaste o jovem que és?
Sou um jovem apaixonado pela vida, por Deus e pelos ‘meus’, membro ativo da Igreja, numa busca constante de uma vida com sentido. E, sem me considerar, de modo algum, melhor do que alguém, acredito que o associativismo e a minha presença nesse meio acabaram por fazer de mim uma pessoa diferente daquela que seria sem essa experiência, juntando a isto, obviamente, todas as influências familiares e culturais que fui recebendo e que, a determinada altura, vemos ecoar nas nossas atitudes e comportamentos.
 
Quais são os teus hobbies? Sentes necessidade de ‘libertar’ o teu tempo?
Um dos meus hobbies favoritos é viajar. Claro que não é um hobby muito comum, mas a verdade é que, sempre que posso, tento, juntamente com a minha esposa, conhecer locais e pessoas diferentes. Felizmente, partilhamos essa necessidade de libertar o nosso tempo! E, quando não temos muito tempo, conseguimos sempre descobrir uma nova zona ou pequena terra perto de nós para nos deixarmos também maravilhar pelo diferente. De resto, gosto bastante de correr, de jogar e ver futebol, e de assistir a filmes e documentários. E como não sou uma pessoa naturalmente rotineira, preciso deste tipo de distrações para que o dia não seja sempre “igual”.
 
És adepto do Vitória de Guimarães? Que explicará o grande entusiasmo da massa associativa do clube?
Nesta cidade, não poderia ser de outra maneira! Sou um adepto vitoriano fervoroso e, por vezes, demasiado sofredor… quando, afinal, “é só futebol” – como dizem. Mas em Guimarães somos ensinados a amar a nossa cidade e a defendermo-la sempre. Somos bairristas e tradicionalistas porque tal nos foi transmitido. É o ar que se respira na cidade. E o entusiasmo da massa associativa explica-se assim: o Vitória é uma extensão da nossa vimaranensidade, é intrínseco e natural ser-se vitoriano e, como tal, é impossível sermos-lhe indiferentes. E quem aprende a amar, quando ama, ama mesmo muito. A outra razão prende-se com o facto de nos sentirmos diferentes dos outros. Vemos poucos clubes com esta paixão pela equipa da terra, e isso também nos engrandece, de certa forma.

Família, meu porto seguro

Que perceção tens do teu irmão e dos teus pais? Foram e continuam a ser a base onde assentas a tua personalidade?
Tenho a noção de que cada um vê os seus familiares de um modo muito particular, e não podia ser de outro modo. A minha família sempre foi o meu porto seguro, aquele núcleo onde percebi que, mesmo se tudo à volta parecesse desabar, havia um refúgio para mim. Somos todos muito unidos e bastante carinhosos uns com os outros, e tanto os meus pais como o meu irmão têm uma grande influência na minha personalidade. Como já referi, reparo agora que muitas das minhas atitudes e comportamentos são reflexos deles, bem como do que aprendi e vivi com eles, principalmente num período de definição da personalidade. Tive a felicidade de aprender a amá-los com toda a força, de saber respeitar as suas fraquezas e virtudes e, reconhecendo tudo isto, estou certo de que serão sempre a base da minha existência, dos meus valores e da minha fé.
 
A tua mãe é ótima cozinheira? Quais são as ementas favoritas em vossa casa? Ela sabe preparar o ‘Bucho recheado’, muito comum na vossa zona? Como se prepara esta iguaria? Em que restaurantes se pode encontrar, para quem desejar saborear?
 
A minha mãe é uma excelente cozinheira, que arrisca e experimenta novos pratos, mas que faz os tradicionais deliciosamente bem! Adoro comer arroz de cabidela, ou uns rojões à moda do Minho, mas qualquer prato que faça costuma ser do meu agrado. No entanto, o famoso bucho não é preparado em minha casa. Sei que é algo que o meu pai aprecia, mas não costumamos comer e já são poucos os restaurantes que o preparam. Um deles é até perto de onde vivo agora, o Florêncio, mas nunca lá comi esse prato.

Obra Social do Sagrado Coração de Maria e discernimento vocacional

Trabalhas há vários anos na Obra Social do Sagrado Coração de Maria. Que tipo atividade nela desenvolves?
Trabalho como professor, num ATL com um excelente projeto educativo, mas as minhas funções acabam por ultrapassar a vertente letiva de ensino e tutoria. Esta casa, pregando também os valores do Evangelho, tem grande interesse na Educação Não-Formal, algo que contribui para a dignificação e realização dos jovens enquanto seres pensantes e ativos na sociedade. E as duas vertentes, juntas, parecem-me fundamentais para ajudarmos estes jovens na definição das suas virtudes e na busca que certamente farão pelo sentido das suas vidas.
 
Que tipo de famílias colocam os filhos nessa Obra? Quais são as principais motivações dos pais das crianças e jovens?
Sendo que a nossa Obra recebe crianças desde os primeiros meses de vida até ao terceiro ciclo, as motivações podem ser ligeiramente diferentes: alguns fazem-no porque também eles já frequentaram a Obra e conhecem a metodologia e a identidade do mesmo, outros porque temos vindo a desenvolver um trabalho bastante meritório e que cria interesse nos pais. No entanto, julgo que todos têm a noção de que os valores transmitidos por esta casa, por estarem em consonância com o Evangelho, podem ser ligeiramente diferentes e mais enriquecedores para as crianças e jovens. Eu não tenho dúvidas da riqueza que podemos oferecer, e julgo que os pais, cada vez mais, dão valor a este nosso carisma.
 
Não obstante a Obra ser creche, jardim-de-infância e ATL, gostaria de te perguntar algo que se relaciona com as escolas ditas ‘Católicas’: Deveriam tais escolas proporcionar uma especial atenção no que se refere ao discernimento vocacional dos alunos? Porquê?
 
Não tenho qualquer tipo de dúvidas relativamente a isso. Acho que é óbvio que o discernimento vocacional tem que fazer parte da metodologia das escolas cristãs. Contudo, julgo que ainda não sabemos fazer pastoral vocacional. Estamos, aos poucos, a fazer caminho nesse sentido, e tenho a felicidade de ver isso acontecer, por exemplo, no Colégio do Rosário, também do Sagrado Coração de Maria, e que tem vindo, através das aulas de Interioridade, a trabalhar uma maior profundidade na relação dos jovens com o divino. Só com esta relação é que o discernimento vocacional pode acontecer. E, com tanta desestruturação em coisas que julgávamos basilares na sociedade, a escola tem mesmo que oferecer aos seus jovens espaços para que se possam encontrar consigo mesmo e com Deus, para que a entrega aos outros possa, porventura, ser entrega a Ele.

Pastoral paroquial e Juvenil em Guimarães

Que tipo de envolvência tens tido na pastoral da paróquia onde resides? Há dinâmicas catequéticas, também de natureza vocacional, para os jovens?
Apesar de ter mudado de casa há já algum tempo, ainda não tenho qualquer tipo de envolvência na paróquia onde resido. Continuo a fazer a minha vida paroquial em São Sebastião, onde já me encontrava integrado, e apesar de já não ser catequista, o aspeto vocacional era algo que para nós estava presente, antes de mais, na linha da intimidade com Deus que poderíamos proporcionar às crianças e jovens. Certamente que esse caminho tem sido trilhado com mais intensidade, até. 
 
Como sentes a Pastoral Juvenil no Arciprestado de Guimarães?
 
Sinto que há uma intenção em unir os grupos e movimentos, mais do que fazer atividades atrás de atividades. Parece-me, hoje, que se olha a Pastoral Juvenil em Guimarães como um espaço que, ao invés de precisar do “serviço” dos grupos, pode antes servir os grupos, proporcionando-lhes espaços de vivência da fé mais íntimos, interpelativos, culturais e qualitativos. No entanto, sinto que os grupos de jovens vivem mais abertos aos seus movimentos do que à Pastoral da sua cidade. É tudo uma questão de identidade e essa identidade constrói-se.

Opção de vida no projeto catequético e pastoral da Igreja

O projeto catequético ajuda a fazer uma opção de vida?
Sem dúvida! Tive dez anos de catequese por vontade própria e, no final desse período, a minha opção de vida enquanto jovem era clara: seguir Jesus, aceitando todas as minhas limitações e fragilidades. O facto de não me tentarem “vender” um qualquer Jesus na Catequese, dando-me antes liberdade de julgamento para perceber quem era o filho de Deus, através daquilo que fez e do que representava, fez-me querer saber sempre mais sobre Jesus. E foi também esta a dimensão que tentei que existisse quando fui catequista.
 
Consideras que a pastoral da Igreja tem clara esta dimensão vocacional? Sentiste essa clareza no teu percurso? Como se pode potenciar?
Curiosamente, a forma como a dimensão vocacional se apresentava nos diferentes espaços de Igreja que fui frequentando foi sempre pouco clara e um pouco envergonhada, até. Contudo, quando assim não era, ainda me parecia pouco crível. Mas, mais curioso ainda, é perceber agora que o local onde a dimensão vocacional se apresentou da forma mais interessante e menos “opressiva” foi justamente no Seminário.
 
Lá, constatei que a forma de se potenciar uma verdadeira busca vocacional não passa pelo chamado “marketing vocacional”, a tal “venda” pouco crível, mas antes pela atenção dada a cada ser, a cada busca, percebendo que a Igreja é mais feliz e mais Igreja quanto mais vocações (familiares ou sacerdotais) os seus membros assumirem – de verdade – na alegria e na liberdade. E por falar em felicidade da Igreja, a felicidade de ser padre, freira ou leigo é aquilo que menos devemos ter medo de mostrar. Foi isso que me fez fazer a caminhada de pré-seminário durante um ano com mais vontade: perceber o quão felizes aqueles padres e aqueles seminaristas são no caminho que percorrem.

Jovens: ver o Seminário e Pré-Seminário com lentes novas

Os jovens sentem o Seminário como coração da Diocese? Que ideia tens do Seminário?
Infelizmente, não julgo que o seminário seja visto desse modo pela maioria dos jovens. Aliás, tal como acontecia comigo, o seminário parecia sempre um local perigoso: o local onde estão aqueles que têm como pretensão entregar a vida a Cristo, um lugar que, pelo pouco que sabemos, vamos mitificando com estórias de um antigamente nada presente, onde imperava a severidade, a rigidez e a não-discussão de ideias ou dúvidas.
Hoje, vejo o seminário com umas lentes completamente novas. Vejo o Seminário Maior (especificamente) como um espaço único de crescimento na fé, de partilha de conhecimentos, dúvidas, intrigas, sonhos e projetos. Vejo o Seminário como um local onde a alegria é irmã da fé, e onde a cultura opera um papel fundamental na transformação do “ser pensante”. E vejo o seminário assim porque vi, realmente, o fantástico trabalho lá desenvolvido por uma equipa que é mais do que isso, que é família de cada jovem.
 
Frequentaste o Pré-Seminário. Que ideias tinhas? Aconselharias a um colega teu? Porquê?
Não tinha qualquer ideia sobre o pré-seminário. Simplesmente aceitei um convite do meu pároco para “pensar” o meu caminho de vida, a minha vocação. O facto de ter pensado pouco no que seria o Pré-Seminário fez com que chegasse lá sem “travões” – sem ideias pré-concebidas de que estaria num local que poderia não fazer sentido para mim, abrindo-me antes àquilo que cada encontro me apresentava. Teria já vinte e poucos anos, já tinha concluído os estudos e estava a trabalhar há alguns anos.
E, sem dúvida, aconselho a qualquer colega que comungue desta nossa fé. O que se vive num contexto de pré-seminário é de tal forma forte e fraterno, que terei sempre saudades daqueles tempos de Eucaristia, oração e reflexão tão bem orientados.

Itinerância e proximidade

O que mais valorizas do Pré-Seminário? O que seria bom desenvolver?
O que mais valorizo é, claramente, a interioridade que o pré-seminário nos permite viver… Penso que tive uma experiência de pré-seminário privilegiada, pois tive a sorte de combinar alguns encontros de pré-seminário ao sábado com encontros semanais, onde a vida quotidiana do seminário estava mais visível. Jamais esqueço o quanto “me ardia o coração” nas Eucaristias em que participava juntamente com os colegas seminaristas, depois de um dia de trabalho.
Quanto ao que seria bom desenvolver, penso que seria uma boa aposta se as sessões do pré-seminário, ou algo dentro do mesmo género, pudessem chegar aos arciprestados da nossa diocese: seria uma espécie de pré-seminário itinerante com grupos de jovens, crismandos e catequisandos mais velhos, que, desse modo, teriam a possibilidade de estreitar, também eles, também ali, a sua relação com o seminário.
 
Os Seminários diocesanos parecem-te próximos da comunidade crente?
 
Ainda não. Parece-me haver um esforço da comunidade crente em perceber a importância dos seminários. Aliás, cada um de nós deve zelar e rezar pelas vocações seminaristas, pois é parte da alegria da Igreja encontrar aqueles que entregam a sua vida a Cristo e aos outros. Por outro lado, o seminário está paulatinamente mais presente na vida das paróquias e dos arciprestados. Não tão presente no meu arciprestado como está em Braga, mas compreendo que a geografia não seja muito fácil de fintar. Em jeito de brincadeira, ver médicos estagiários em hospitais deveria ser tão normal como ver jovens seminaristas nas paróquias.

Vocação ao matrimónio e namoro

O teu discernimento vocacional levou-te a concluir que estarias ordenado ao matrimónio. Que sinais foste discernindo em ordem a tomar essa decisão?
Apesar de ter percebido a beleza da vida de pastor da Igreja, algo me dizia que Deus teria outro projeto para mim e alguns desses sinais tinham mesmo a ver com um sentimento intrínseco em formar uma família, em ser pai e marido zeloso. Havia alguns sinais que, no caminho, me iam mostrando que poderia também ser útil enquanto membro de um casal. Aliás, a vocação coloca a pergunta desse modo: Como podes ser útil a Deus? O que quererá Ele da tua vida?
 
A experiência de namoro beneficiou do discernimento promovido ao nível do Pré-Seminário? Ajudou-te a trabalhar esta opção fundamental de vida? De que forma?
 
Sem dúvida. Acima de tudo, ajudou-me a perceber que caminho teríamos que trilhar, se quiséssemos servir a Deus. Felizmente, a minha esposa, a Susana, comunga dos mesmos valores cristãos que eu e, portanto, o namoro foi um período muito bonito para nós, pois ambos nos consideramos instrumentos de Deus. Desse modo, fomos tentando saber perceber os caminhos que Deus queria para nós e tentamos ser sérios no caminho de vida que começamos a desenhar. Tratou-se simplesmente de uma questão de genuinidade e vivência da fé que nos orgulhamos por professar.

O batismo das crianças e as qualidades da Susana

Neste momento encontras-te já casado com a Susana, tua esposa. Em relação ao projeto para os filhos, assim que aparecerem, pensais batizá-los durante os primeiros anos, ou deixareis para a idade de catequese? Porque pensais assim?
Na verdade, ambos gostaríamos de batizar durante os primeiros anos, uma opção que julgo que se prende com a importância que atribuímos ao batismo. Reconheço também grande beleza na opção de uma criança ou jovem em ser batizada, mas o facto de o batismo ter sido um marco importante no nosso início de vida faz-nos querer passar o mesmo aos nossos filhos. É um segundo nascimento, o nascimento para a fé, para a Igreja de Deus. E, vendo-o, assim, que os nossos filhos nasçam o quanto antes para essa mesma fé.
 
Quais são as melhores qualidades da Susana? Como aprecias o trabalho dela no hospital?
 
Uma das coisas mais bonitas que o casamento nos traz é o conhecimento do outro na rotina e no dia-a-dia. E o que me tem fascinado mais na Susana é a sua simplicidade. Reconheço-lhe outras qualidades como a organização, a coragem, a capacidade de trabalho, o profissionalismo, o jeito carinhoso, a solidariedade, o sentido de humor… e tantas outras, mas a simplicidade dela arrasta-me sempre para o seu coração. Curiosamente, é a simplicidade e o desprendimento de Jesus que me fez apaixonar por Ele e pela sua mensagem, e, como não podia deixar, é a atenção ao que realmente importa e o descartar do que é acessório, fútil e prescindível que me faz apaixonar pela Susana dia após dia. Quanto ao trabalho dela, parece-me extremamente exigente e faz-me admirá-la ainda mais. A vida de um profissional de saúde em Portugal é absolutamente absorvente e só se pode “aguentar” a vida de hospital com grande entrega. É assim que vejo o trabalho dela: uma entrega exigente e que requer muito sacrifício.

Ligar os pontos na pastoral vocacional e dos jovens

Recentemente, tu e tua esposa colaborastes com os Seminários Arquidiocesanos numa ação de Pastoral vocacional realizada na Póvoa de Lanhoso. Como apreciastes esse momento?
Ambos gostámos muito de estar presentes nessa “conversa” que aconteceu na Póvoa. Para além de, pessoalmente, me ter dado a oportunidade de refletir sobre o caminho que tinha feito, desde os meus primeiros anos de movimentos católicos até ao presente, deu-nos também a oportunidade de “ligar os pontos” desse caminho e, em casal, percebermos a Graça que Deus nos deu por nos permitir formar uma pequena igreja domiciliária, a nova família que formamos os dois.
 
Além deste contributo, algum de vós desenvolve alguma missão especial em termos de voluntariado?
Infelizmente, não temos estado tão presentes em ações de voluntariado como pretenderíamos. Temos participado mais segundo solicitações que nos vão chegando e às quais vamos respondendo, pontualmente. No entanto, a minha presença na Pastoral de Jovens do Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, bem como a presença da Susana no Centro Missionário Arquidiocesano de Braga, ajudam a dar sentido à nossa missão cristã.

 

Onde estão os jovens?

«Onde estão os jovens?» Também fazes esta interrogação, por exemplo quando participas nas celebrações e nos eventos da tua comunidade?
Considero-me um otimista, portanto, costumo ver o copo meio cheio… Na verdade, fico sempre feliz e esperançoso com a presença de jovens na Igreja. Tenho a sensação de que estamos perante um tempo de grande alegria para a Igreja, um tempo em que a juventude que se aproxima e faz caminho na Igreja Católica o faz por plena convicção. Não quero com isto diminuir a caminhada de fé de outras gerações, no entanto, parece-me que os católicos de hoje são, cada vez mais, católicos convictos das suas crenças e da caminhada que querem fazer. Espero que esteja para breve que as pessoas saibam quem são não apenas por cultura, para que deixemos de perguntar a alguém se é católico praticante ou não, se me faço entender…
 
Como saberás, o Sínodo dos Bispos previsto para 2018, vai centrar-se no tema «Jovens, a fé e o discernimento vocacional». No Documento preparatório que já foi divulgado, sublinha-se que os episcopados não devem só olhar para os jovens que participam na Igreja, mas também para aqueles que dela estão afastados. Parece-te bem este horizonte mais aberto?
Claro que me parece bem, o Bom Pastor também veio para as ovelhas perdidas. Mas a Igreja só tem uma forma de estar próxima daqueles que estão afastados da Igreja: ser de Cristo. E ser de Cristo é ser exemplo, exemplo genuíno dos valores do Evangelho. Nunca poderemos permitir-nos, a nós Igreja, pregarmos algo que não praticamos. Melhor será praticarmos a bondade e a compaixão, ao jeito do nosso Papa, do que pregarmos algo vazio e exterior a nós, mas que é bonito e erudito. Todavia, esse exemplo tem que vir da base da Igreja, leigos, padres e religiosas, senão o exemplo fantástico do nosso Santo Padre tinha chegado para aproximar todos os que foram perdendo a confiança na nossa Igreja.

 

As coisas podem mudar?

Na Carta que, em janeiro deste ano, o Papa Francisco escreveu aos jovens, por ocasião da publicação do Documento preparatório para este Sínodo, pode ler-se: «Na inauguração da última Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia, perguntei-vos várias vezes: “As coisas podem mudar?”. E juntos, vós gritastes um “Sim!” retumbante. Aquele brado nasce do vosso jovem coração, que não suporta a injustiça e não pode submeter-se à cultura do descartável, nem ceder à globalização da indiferença. Escutai aquele clamor que provém do vosso íntimo! Mesmo quando sentirdes, como o profeta Jeremias, a inexperiência da vossa jovem idade, Deus encoraja-vos a ir para onde Ele vos envia: «Não deves ter [...] porque Eu estarei contigo para te libertar» (cf. Jr 1, 8).» Também tu estás persuadido de que as coisas podem mudar? Que te faz pensar assim?
Como já antes referi, considero que vivemos num tempo de alegria para Igreja. O próprio facto de ser cristão estar fora de moda ajudar-nos-á a redefinir o nosso caminho enquanto povo cristão. A tal “cultura do descartável” e a “globalização da indiferença” obriga-nos a tomar uma posição, a escolher verdadeiramente a quem queremos seguir. Não seremos cristãos apenas porque sim… porque os nossos pais eram; porque toda a gente é. Seremos cristãos por convicção, porque olhamos para Jesus e queremos fazer caminho com Ele e ajudá-l’O na Sua missão terrena.
 
Na parte final da sua Carta, o Papa Francisco sublinha algo de muito importante: «Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores. São Bento recomendava aos abades que, antes de cada decisão importante, consultassem também os jovens porque «muitas vezes é exatamente ao mais jovem que o Senhor revela a melhor solução» (Regra de São Bento III, 3).» Será que o Senhor continuará a revelar algumas das suas melhores soluções aos mais jovens? Ou, entretanto, terá desistido da sua colaboração?
Deus não desiste. E sabe que os jovens procuram a verdade e a justiça com avidez! É das coisas que vou pedindo a Deus: que o amadurecimento não me faça perder a vontade insaciável de ser diferente e fazer diferente, de ousar acreditar num mundo Outro. E Deus sabe que os jovens mantêm essa capacidade de sonhar estabelecer pontes, de sonhar um mundo melhor e um tempo de plenitude. Os jovens não têm medo de ir atrás do que julgam que os realizará. Todos querem ser felizes e arriscarão tudo para o tentarem ser. Estou certo de que Deus revela aos jovens as suas melhores soluções e nós apenas teremos que nos manter jovens para acreditarmos que eles são já o presente da Igreja, por nos desafiarem continuadamente.

 

Jovens: Perder tempo não é opção

Num estudo recente, realizado nos EUA e publicado no National Catholic Register, onde se estuda nomeadamente a problemática dos jovens que abandonam a Igreja, Nicole Sotelo chaga a esta conclusão a partir da sua própria experiência: «Na minha experiência, tendo trabalhado com muitos jovens adultos católicos durante mais de uma década, aqueles que deixam a Igreja fazem-no muitas vezes para preservar o espírito que neles habita. Os jovens católicos querem agarrar-se à sua integridade e sentem que não podem rezar no altar de uma religião que não pratica o que prega. Outras vezes, a sua razão para abandonarem é precisamente a pregação, quando a mensagem da homilia se torna política ou nociva.» Parece-te que estas razões também poderão estar presentes nos jovens que na tua paróquia abandonam a Igreja?
Mais do que isso, até. Os jovens adultos entram numa fase da vida em que perder tempo não é opção. Se ir à Igreja é um martírio, pelo facto de as homílias ou celebrações serem vazias, nocivas ou pouco credíveis, o jovem adulto irá procurar outra forma de viver a sua espiritualidade. Muitas vezes, deparamo-nos com um fenómeno a que podemos chamar “estudo de mercado”: começa-se a perceber que os jovens vão procurando aqui e ali o padre ou a paróquia que mais lhe diz. E isto apenas segue a lógica do mundo atual… Passando a comparação, com todos os seus defeitos, não vamos apenas à mercearia do lado por estar mais perto, vamos onde queremos ir, seja por que razão for. O mesmo se passa com a Igreja. E, em último caso, o abandono da Igreja também será real ante as diferentes opções de vivência da espiritualidade disponíveis, e na moda, principalmente as vindas do mundo mais a oriente.

 

Diante de quem Jesus fracassa

Um dos grandes desafios que os jovens têm pela frente prende-se com a capacidade de decisão. E Jesus nada pode fazer com os ‘indecisos’. Christian Bobin, em Autoportrait au radiateur, escreveu sobre diante de quem Jesus fracassa, registando mais duas categorias: «Os loucos, os leprosos, os histéricos, os cegos, os mudos, os paralíticos: Cristo a todos socorreu. Somente diante de duas categorias ele fracassa e se impacienta: os imbecis e os doutos. Estes têm em comum a sua presunção. Ninguém, nunca, lhes fará compreender uma coisa tão simples: que o amor é fonte da maior inteligência possível. A estupidez e o espírito de sistema são dois endurecimentos, duas maneiras de provar o seu poder sobre o mundo. Ninguém, nunca, abandona de sua própria vontade o poder que tem, ainda que imaginário.» Concordas com isto?
De certo modo, apenas, pois tenho esperança de que para Deus não há impossíveis. No entanto, entendo que a sobranceria ou a “imbecilidade” são um obstáculo. Mas permita-me dizer que, apesar de Jesus vir para que todos tenham vida, como vemos em João, a liberdade que Ele nos dá para escolhermos segui-lo é reveladora de que cada um decidirá se faz parte dos “todos” para os quais Ele vem. Não há escolhidos, há quem queira fazer parte do “santo povo de Deus” (belíssima expressão do Papa Francisco). Assim, a capacidade de decisão será, pelo menos, livre. O problema é não decidir, ser “indeciso”. Aí, cabe-nos a nós sermos exemplo, sermos caminho para Deus.
 
Para atender a este problema, Nicole Sotelo propõe o seguinte: «Além de criarem novos programas ou maneiras de atrair os jovens, os responsáveis eclesiais também precisam de responder a algumas das preocupações mais profundas, que incluem injustiças estruturais e ensinamentos nocivos que estão a levar os jovens adultos fiéis para fora das portas da Igreja. Mas ao mesmo tempo muitos, incluindo eu, empenharam-se em ficar.» Partilhas desta opinião?
Sem dúvida. O caminho é menos programático e mais identitário. Quem sabe se a Igreja não precisaria de um novo Concílio, para que muitas destas questões da chamada pós-modernidade pudessem vir a ter resposta, uma vez que o último concílio foi uma lufada de ar fresco na vida da maioria dos Católicos da altura… com repercussões positivas e renovadoras até ao dia de hoje! Será que estamos a saber responder ao que o mundo de hoje nos pede, enquanto Igreja, visto todas as mudanças estruturais que têm surgido nos últimos cinquenta anos? É a nossa identidade enquanto Igreja, o nosso Norte e rumo que temos de reorientar, para que todos falemos a mesma língua. Acredito, piamente, que Francisco está a preparar o caminho para essa renovação! E é esta crença, presente em mim e na maior parte dos Católicos, que nos permite ficar e empenharmo-nos na mensagem da nossa Igreja Católica. Se soubermos e conhecermos Aquele que pregamos, não podemos perder a esperança. Ele renova tudo!

 

Faz sentido

Que mensagem gostarias de deixar aos leitores desta entrevista?
Que Deus nos possa sempre desafiar a sermos diferentes. Foi algo que sempre me apaixonou em Jesus: foi (e é) diferente por perceber que é necessário sê-lo, rompendo com o marasmo, com a angústia e a desesperança em que o povo de Deus vivia. Que saibamos também ser diferentes para podermos ajudar que mais pessoas conheçam este dom de Deus que é a fé. Faz Sentido remar contra a maré, porque sabemos que, em qualquer tempestade que possa existir, Deus estará connosco e nos guiará até porto seguro. Faz Sentido também a ir aos Seminários e levar os vossos grupos de catequese, os vossos grupos de jovens, as vossas famílias. Vão perceber o porquê de o Seminário ter reforçado em mim e em tantos jovens a alegria de ser cristão, algo que jamais esquecerei. Quando por lá passo, é um prazer sentir aquela dimensão de ser Igreja e matar saudades daquela vivência familiar! Uma dimensão e uma família que eu gostava tanto que fosse próxima de cada um daqueles que lê esta entrevista! 

Pré-Seminário Jovem/Adulto