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Laranjeiras e vocação em flor

Temas de reflexão: Pedro Antunes em visão refletida. Valoriza, Associação de Desenvolvimento Local. Migração de Azurém para Santa Maria de Bouro. Amares. Mosteiro e Pousada de Santa Maria de Bouro. Santuário de Nossa Senhora da Abadia. Eduardo Souto de Moura e Humberto Vieira. Espiritualidade cisterciense. Laranjas de Amares e de Ermelo: sabores, perfume, rotas. Irene e Adelina Carneiro, vendedoras. Locais para comer sarrabulho e rojões à moda do Minho. Mosteiros de Santa Maria das Júnias e de Oseira. Sociologia na Universidade do Minho. Vocação e discernimento no Pré-Seminário. Jovens: evangelização e afastamento da Igreja. Balanço de 3 anos no Seminário Conciliar. Seminários e proximidade. Santo Inácio de Loyola: “Em tudo amar e servir”; “Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”.

Laranjeiras e vocação em flor

Laranjeiras e vocação em flor

Pré-Seminário

19 de Março de 2017

Pedro Joaquim Antunes

Grande Entrevista

Pedro, ainda que seja atentar contra a modéstia, que dizes de ti mesmo? Tens idade para te espelhar, e por isso sempre numa visão refletida, com economia de palavras próprias?
Supostamente, com o avançar da idade, vamo-nos conhecendo melhor. Contudo, nem sempre é fácil falarmos de nós mesmos. Posso dizer que o Pedro tem 30 anos, é natural de Azurém, concelho de Guimarães, mas pertencente à paróquia de Santa Maria de Bouro, arciprestado de Amares, há cerca de 20 anos. Até ao mês de Julho de 2014, estava a fazer um mestrado na Universidade do Minho e a trabalhar numa instituição sediada em Amares chamada «Valoriza». Atualmente, está a frequentar o 3.º ano do Mestrado Integrado em Teologia, na Universidade Católica e o 3.º ano do Seminário Conciliar São Pedro e São Paulo, em Braga.
 
 
Quais são as principais atividades e os objetivos da «Valoriza»?
A Valoriza – Associação de Desenvolvimento Local é uma associação do concelho de Amares, fundada em Julho de 2010, que nasceu da necessidade de se criar uma instituição que complementasse o trabalho social já desenvolvido no concelho e que valorizasse o território e os seus produtos endógenos, numa lógica de proatividade e aproveitamento de sinergias.
Tem como objetivo prioritário o apoio à infância e juventude; crianças, jovens e pessoas adultas com deficiência; a assistência a pessoas idosas; à família e comunidade em geral, no sentido de fazer face às necessidades emergentes. Paralelamente, procura a valorização do artesanato, do turismo e de outras atividades de interesse, designadamente culturais, profissionais, educacionais e económico-sociais, visando o desenvolvimento do concelho de Amares.
 
 
O que está na origem da vossa migração de Azurém para Santa Maria de Bouro?
Essa migração é, essencialmente, um regresso para junto dos meus avós maternos, que eram, na altura, residentes na freguesia vizinha – Santa Marta de Bouro. O motivo principal da mudança para junto dos meus avós foi, em certa medida, prestar-lhes apoio nesta fase da vida deles. Mas, antes desta migração, ainda existiu um período em que vivemos numa freguesia do concelho de Guimarães chamada Rendufe, onde frequentei os quatro anos do 1.º ciclo e da Catequese.
 
 
Santa Maria de Bouro tem coisas muito especiais, desde logo o mosteiro. De que Ordem religiosa era? Quando foi fundado e porque chegou a ser propriedade privada? Quem gere atualmente a igreja e os antigos espaços monásticos?
O mosteiro de Santa Maria de Bouro pertenceu à ordem de Cister, cuja origem remonta a finais do séc. XII. Terá sido fundado por monges eremitas que viviam no monte São Miguel, junto ao atual Santuário de Nossa Senhora da Abadia, pelo menos desde o séc. IX. Os eremitas terão adotado a regra beneditina nos finais do séc. XI, filiando-se posteriormente a Alcobaça e a Cister.
Terá passado a propriedade privada quando, em 30 de maio de 1834, foi publicado o decreto que determinou a extinção das Ordens Religiosas, primeiro as masculinas e depois as femininas. No mesmo ano, formulou-se o regulamento de transferência dos bens destas ordens para a Fazenda Nacional. Por consequência, também os cartórios monásticos foram nacionalizados, pois neles se conservavam os títulos de posse e a documentação indispensável à administração dos referidos bens.
Atualmente, o antigo convento é denominado como Pousada de Santa Maria de Bouro e a sua gestão pertence, desde 1994, ao grupo Pestana e o mosteiro (igreja) pertence à paróquia de Santa Maria de Bouro. A gestão do claustro que se encontra entre a igreja e a Pousada é partilhada entre ambas as entidades.
 
 
Que tens a dizer da sua reconversão em Pousada de Portugal? E da reabilitação que é da autoria de Eduardo Souto de Moura, vencedor de um Pritzker em 2011, e Humberto Vieira? O que mais te surpreende na intervenção arquitetónica? Algumas das soluções foram adotadas na reabilitação do Museu Grão Vasco, em Viseu?
Infelizmente, por vezes, é comum encontramos no nosso país a degradação de algum património histórico com uma potencialidade enorme para o turismo. Ao longo do séc. XX, era visível a degradação a que foi votado o convento. A reconversão em Pousada de Portugal permitiu a restauração e preservação desses espaços que, de outra forma, permaneceriam devolutos e abandonados.
Não sendo eu um especialista em arquitetura, posso dizer a reabilitação da autoria de Eduardo Souto de Moura e Humberto Vieira foi muitíssimo bem conseguida. Basta procurar na internet fotografias do convento antes da restauração e depois da restauração para perceber o excelente trabalho dos arquitetos na preservação da essência daquele espaço. Tradição e modernidade fundem-se harmoniosamente.
Sobre o Museu Grão Vasco, em Viseu, sei que foi reabilitado também por Eduardo Souto de Moura, entre 2001 e 2003, mas não posso precisar se o autor se inspirou na reabilitação da Pousada. Fica em aberto a possibilidade da descoberta in loco dessa transformação.
 
 
 
Quais são os santos que aparecem na frontaria da igreja? Que terá presidido à escolha das personagens que aparecem, em esculturas, na fachada principal do próprio convento?
Os santos que aparecem na frontaria da igreja são: São Bento (à direita), São Bernardo (à esquerda) e a Virgem Maria (ao centro), figuras que remetem para as origens do mosteiro. Na fachada do próprio convento encontram-se ainda representados o conde D. Henrique, D. Afonso Henriques, D. Sebastião, o cardeal D. Henrique e D. João IV. Estas figuras remetem para as personagens mais significativas, para a história da Ordem e do convento. Por sua vez, a Sagrada Família, ou o Regresso do Egipto, aludem ao desterro e à época anterior à Congregação Autónoma.
 
 
Relativamente à igreja, quais são as particularidades do retábulo-mor e do cadeiral?
O retábulo-mor de estilo setecentista contém uma inversão dos santos da fachada exterior. É revestido pela magnífica talha dourada que dá destaque ao jogo de volumes. O magnífico cadeiral data da segunda metade do século XVII. Encontra-se disposto em dois andares, sendo que os painéis do espaldar apresentam baixo-relevos entalhados que narram alguns episódios da vida de S. Bento e da vida de S. Bernardo. Nele, os monges faziam as suas orações. Nos painéis da esquerda narram-se episódios da vida de S. Bernardo, nos da direita os da vida de S. Bento. Para além da qualidade artística que lhes reconhecemos, é assinalável nestes painéis o facto de retratarem cenas similares da vida destes dois santos, pois cada relevo parece constituir um espelho do que se encontra defronte, obrigando a uma leitura em ziguezague.
 
 
A sacristia é considerada uma joia arquitetónica. O que há nela de especial?
A sacristia, datada de 1715, é revestida de azulejo azul e branco do século XVIII, e retrata algumas cenas da vida de S. Bernardo. Possui um teto de caixotões que ostenta pinturas fitomórficas policromadas e de enrolamentos que nos recordam o estilo Barroco Joanino. Entre elas conta-se um pequeno e único pássaro. É uma alegria ver as crianças da catequese à procura do pássaro no teto, pois este torna-se numa espécie de rito de iniciação e de descoberta. A toda a volta, e encostado às paredes, encontra-se o mobiliário da sacristia, em madeira e com aplicações em bronze nas gavetas. O chão da sacristia é todo revestido com grandes pedras de granito polidas. Creio que estes já são motivos de sobra para uma visita!
 
 
Quais são as principais dimensões da espiritualidade cisterciense?
A Ordem de Cister aspirava, em tudo, a um regresso à primitiva simplicidade das ordens monásticas. À pobreza de hábito juntavam a simplicidade na alimentação, nos edifícios que erguiam e na liturgia. Os princípios basilares da espiritualidade cisterciense passam, assim, pela austeridade, ascetismo e despojamento, refletindo a regra de São Bento.
 
 
Em teu entender, a espiritualidade dos bourenses foi plasmada pelo influxo cisterciense? Em que expressões é mais percetível? A tua família bebe dessa fonte?
Creio não ser abusivo afirmar que a Vila de Bouro é construída em torno do Mosteiro de Santa Maria de Bouro e do Santuário da Senhora da Abadia, dois monumentos com raízes comuns. A envolvência da “história” com a natureza transmite uma calma e harmonia que não é possível descrever em poucas palavras. Toda a realidade espiritual, social e cultural dos bourenses é claramente fruto dessa marca histórica e religiosa. A maior expressão dessa espiritualidade reflete-se na simplicidade e humildade dos habitantes de Bouro e das terras vizinhas. Simplicidade e humildade extensíveis também à minha família. A nível cultural, a espiritualidade cisterciense também poderá estar na origem da relação de Santa Maria de Bouro com a música e o teatro. Essa relação profunda pode, atualmente, ser confirmada pelo trabalho que a Banda Filarmónica de Santa Maria de Bouro e o Grupo de Teatro de Santa Maria de Bouro têm vindo a desenvolver ao longo dos anos.
 
 
Estarão os monges cistercienses na origem, ou pelo menos na promoção, da cultura da laranja em Amares? Quais são as características dessa variedade de laranjas? Há alguma relação com a ‘laranja de Ermelo’, cultivada precisamente junto do Mosteiro de Ermelo, nos Arcos de Valdevez?
É bastante plausível pensar na influência dos monges na promoção da laranja em Amares, pois a agricultura era, precisamente, uma forma de os monges proverem à sua subsistência. Contudo, crê-se que a Laranja de Amares tem as suas origens na China, tendo sido inclusivamente levada, mais tarde, para Macau. Mas chega a esta região muito antes, pelas mãos dos nossos navegadores, estando assim intimamente ligada à época áurea dos Descobrimentos Portugueses. Podemos dizer que a laranja se deu muito bem nas terras locais, graças ao clima, que lhe conferiu uma casca fina, aparência rústica e um conteúdo delicioso e suculento, características que a assemelham precisamente à ‘laranja de Ermelo’.
 
 
Que se tem feito em Amares para promover a exploração da laranja e dos seus derivados? Será importante preservá-la, em termos de património genético, para valorizar a riqueza da fitodiversidade?
Algumas iniciativas foram desenvolvidas em Amares ao longo dos anos para promover os produtos locais, nomeadamente a laranja, mas não só. Quanto à laranja, a Câmara Municipal de Amares assinou um protocolo com a TecMinho, com a finalidade de estudar o potencial de valorização da “Laranja de Amares”, um dos principais recursos do concelho, e fazer a caraterização físico-química da mesma. Tem procurado também a certificação da laranja de Amares. Para além disso, são promovidos anualmente vários eventos como a Feira Franca de Amares ou Festival das Papas de Sarrabulho que permitem dar a conhecer as qualidades da gastronomia e dos produtos de Amares. Mas estes não são os únicos eventos: posso referir ainda, para os amantes de ciclismo, a Rota da Laranja e, para quem gosta de caminhar, os diversos trilhos que vão sendo promovidos ao longo do ano. Através destas e de outras iniciativas é possível atestar a beleza do concelho de Amares e as suas potencialidades a nível do turismo. A nível privado, as empresas locais procuram comercializar cada vez mais produtos que tenham como base a laranja de Amares e isso também é prova do crescente reconhecimento que a mesma tem tido no mercado de consumo.
 
 
Quem são as senhoras que, em Santa Maria de Bouro, vendem laranjas na berma da estrada, juntamente com cebolas e outros frutos e hortícolas? São produtos de qualidade? A casca, às vezes com cochonilha e fungos, não causa distúrbios alimentares?
As senhoras que vendem fruta e outros produtos hortícolas na berma da estrada são duas irmãs, de nome Irene e Adelina Carneiro, residentes em Santa Maria de Bouro. Não sei precisar há quanto tempo o fazem ou se sempre o fizeram, mas isso acontece pelo menos há trinta anos. Quanto aos distúrbios alimentares, não tenho conhecimento de que algo do género tenha alguma vez acontecido. Mas posso dizer que, porventura, centenas, senão milhares de pessoas, ao longo destes anos, consumiram esses produtos. Creio que esta longevidade também diz da qualidade dos produtos que por ali são vendidos. Se eu tivesse de escolher entre comprar alimentos aos produtores locais ou comprar em super/hipermercados, não perderia muito tempo a pensar…
 
 
Em que altura se pode apreciar melhor a paisagem do perfume das laranjeiras em flor? Não se poderia criar um roteiro com esta paisagem perfumada, à semelhança do que se faz por exemplo em Sorrento, na costa Amalfitana, terra dos limoeiros em flor?
As laranjeiras de Amares começam a abrir a sua flor desde Janeiro/Fevereiro, mas é a partir de Março, ou seja, na primavera que melhor se pode apreciar o seu perfume e é nos meses sem “r”, isto é, de Maio a Agosto, que a laranja de Amares é mais saborosa e suculenta.
Sobre a criação de um roteiro, como já referi, alguns eventos promovidos em Amares, como os trilhos pedestres, já permitem apreciar esse perfume e essa paisagem. Nesse aspeto, a geografia de Amares é peculiar: apesar de não existir propriamente um laranjal digno do nome pela sua extensão, pois o terreno essencialmente montanhoso não o permite, em qualquer “canto” ou recanto do concelho, vemos uma laranjeira a florir.
 
 
Existe algum doce conventual que tenha tido, ou se presuma ter, a sua origem no mosteiro de Santa Maria de Bouro? O serviço de restauração da Pousada tem em conta este tipo de doçaria? Os preços nela praticados são ajustados à relação qualidade / preço?
Um pouco por todo o concelho tem aumentado a valorização da laranja na gastronomia. Apesar disso, não sei dizer se existe algum doce conventual com origem no nosso convento, mas posso dizer que a qualidade do atendimento, da comida e do espaço está garantida. O restaurante e sala de jantar da Pousada de Santa Maria de Bouro estão situados, precisamente, no espaço da antiga cozinha dos monges e o que posso dizer é que é uma das mais belas restaurações que já vi. O espaço é lindíssimo e transporta-nos de imediato para a espiritualidade cisterciense.
 
 
Se alguém desejasse tomar refeições fora da Pousada, onde se poderia comer, por exemplo, umas boas papas e rojões à moda do Minho? Que sugestões poderias fazer, em função de carteiras menos abonadas?
Santa Maria de Bouro também é conhecida pela qualidade dos seus restaurantes. Para além da Pousada, podem e devem ser conhecidas as especialidades do Restaurante Cruzeiro e do Restaurante Abadia, não só no que se refere às papas de sarrabulho e rojões à moda do Minho, mas também relativamente às especialidades de bacalhau, vitela ou cabrito.
 
 
Voltemos à memória para compreender o presente. A missão dos monges consistia em orar e trabalhar, ou chegaram a ter outras atribuições cívicas?
Ao longo dos séculos, a missão dos monges não se resumiu à sua dimensão religiosa. Durante o séc. XIV, o mosteiro terá desempenhado funções militares de defesa contra Castela e, em agradecimento, o condestável D. Nuno Álvares Pereira terá conferido ao abade o título de Capitão-Mor e Guarda das Fronteiras, com a possibilidade de levantar exército, sempre que necessário.
 
 
Qual era a relação dos monges com o santuário de Nossa Senhora da Abadia?
A relação com o Santuário Senhora da Abadia não poderia ser mais próxima. Conforme já referi, a origem do mosteiro de Santa Maria de Bouro deve-se a monges eremitas que viviam no monte São Miguel, junto ao atual Santuário de Nossa Senhora da Abadia, pelo menos desde o séc. IX. Só mais tarde, nos finais do séc. XI, os eremitas terão adotado a regra beneditina, filiando-se posteriormente a Alcobaça e a Cister. Este santuário é reconhecido como um dos santuários marianos mais antigos da península ibérica e foi edificado após os eremitas descobrirem uma imagem da Virgem Maria junto ao local onde se encontra atualmente o santuário. Maria apresenta-se assim como a ligação entre o santuário e o mosteiro à qual foi dedicada o nome da paróquia: Santa Maria de Bouro. Para além disso, sabemos que os núcleos primitivos de Nossa Senhora da Abadia terão sido fundados pelos monges de Santa Maria de Bouro.
 
 
Chegou a existir algum vínculo deste mosteiro com o de Santa Maria das Júnias, em Montalegre?
Sim, crê-se que durante determinado período o mosteiro de Santa Maria das Júnias, em Montalegre, esteve anexado, temporariamente, ao mosteiro de Santa Maria de Bouro, tendo sido agregado posteriormente à Abadia de Oseira. Este facto, bem como as abundantes e valiosas doações, a importância da biblioteca, os conflitos com a abadia de Alcobaça, que tentava impor-se como cabeça da ordem em Portugal, e a receção de privilégios como o de couto, revelam a importância histórica, social, cultural, política e espiritual do Mosteiro de Santa Maria de Bouro.
 
 
Como saberás, desde os meados do século XIII, o mosteiro de Pitões das Júnias passou a seguir a regra da Ordem de Cister, tendo ficado agregado à Abadia de Oseira, na Galiza. Desde há alguns anos que seminaristas do Seminário Conciliar vão para Oseira fazer o retiro espiritual. Pelo testemunho dos colegas, parece-te que é importante proporcionar este local? Porquê?
Ainda não tive a possibilidade de conhecer a Abadia de Oseira, mas espero que isso aconteça já no início do próximo ano académico. De tudo o que ouvi dos meus colegas e vi na internet, o local parece ser magnífico. A imponência da Abadia de Oseira no meio da natureza faz-me recordar, claro, o mosteiro e o santuário onde cresci, não só fisicamente, mas espiritualmente.
Penso ser fundamental proporcionar contato com estes locais, pois pela sua história, espiritualidade e pelo seu ambiente são favoráveis a uma (re)descoberta interior, indispensável ao discernimento vocacional.
 
 
Frequentaste a Universidade do Minho. Que curso estavas a fazer? Ele serviu-te para veres a vida em horizontes novos? Mesmo em termos vocacionais?
Na Universidade do Minho conclui a licenciatura em Sociologia e o primeiro ano do Mestrado em Sociologia. A Sociologia foi transformando a forma de eu ver o que acontece no mundo. Para além dos conhecimentos teóricos, creio que com o curso aprofundei duas competências: por um lado, procurei assimilar os pressupostos metodológicos fundamentais para uma investigação no âmbito das ciências sociais, mas que, em parte, se aplicam a outras áreas científicas; e, por outro lado, sinto que a capacidade de construir uma crítica fundamentada sobre muitos aspetos da vida quotidiana também tem vindo a crescer.
Em termos vocacionais, aprender uma perspetiva teórica de âmbito social relativamente a tudo o que acontece no mundo fez-me pensar com mais profundidade sobre o contributo que eu poderei dar ao mundo, e esse questionamento interior, em parte condicionado por aquilo que acontece no exterior, também influenciou o meu discernimento vocacional.   


A tua decisão vocacional emergiu no contexto universitário ou na envolvência da vida paroquial? Que tipo de serviços pastorais desenvolvias na comunidade paroquial?
Como disse, o curso também influenciou a minha caminhada vocacional, mas a envolvência na vida paroquial teve um peso maior na minha decisão de frequentar o Seminário. Posso afirmar que esta semente que é a vocação, no meu caso, só conseguiu florescer por causa da confiança que o Padre Paulo Neiva me foi depositando ao longo dos últimos anos, desafiando-me a assumir um compromisso cada vez maior com a minha comunidade.
Desde o sacramento da Confirmação, assumi o desafio de ser educador na fé como catequista. Costumo dizer que a paixão por Cristo é uma paixão que não passa com os anos e a catequese possibilita-me viver essa paixão cada vez mais. Sensivelmente desde 2010, fui chamado a ser coordenador paroquial e arciprestal da catequese e isso permitiu que me ligasse à formação para catequistas.
Também me recordo, enquanto catequisando, de ser muito reticente a emprestar a minha voz a Deus para ser leitor na paróquia, mas uma catequista nunca desistiu de me desafiar a prestar esse serviço e hoje é uma das missões que mais gosto de desempenhar liturgicamente.
Como toda a comunidade do Seminário já pôde testemunhar, não sou propriamente um rouxinol [risos], mas, apesar disso, também já apoiei o grupo coral da minha paróquia. Haverá muitas alturas na nossa vida em que perceberemos que a nossa simples presença é mais importante do que a voz.
 
 
Como apreciaram as pessoas (colegas, familiares, pároco, etc.) a tua decisão?
A minha família, os meus padrinhos, o meu pároco, os meus amigos e as pessoas da minha comunidade apoiaram-me profundamente. Parece que este caminho era evidente para todos. Só eu resistia, sem saber bem porquê…
Um aspeto curioso é que eu e o meu pároco nunca falámos sobre a possibilidade de frequentar o Seminário, mas a primeira coisa que ele me disse quando lhe contei que me sentia chamado a discernir uma vocação sacerdotal foi que sabia ser uma questão de tempo até este dia chegar.
 
 
Consideras que a pastoral da Igreja tem clara a dimensão vocacional? Sentiste essa clareza no teu percurso? Como se pode potenciar?
Para responder a esta questão quero relembrar que quando falamos de vocação, não falamos só de vocação ao sacerdócio ou à vida religiosa. A vocação também pode ser matrimonial.
Creio que, na Igreja, estas possibilidades de viver a vocação estão bem clarificadas. Pelos sacramentos conseguimos ter presente quais as vocações a que podemos ser chamados. Ao longo do meu percurso, sempre soube que existiam várias possibilidades de encarar a vida, mas como na nossa sociedade o que é considerado “normal” é que todos procurem alguém para partilhar a vida, ia procurando afastar a ideia de me abrir à possibilidade de ser sacerdote.
As visitas que os Seminários Arquidiocesanos fazem aos arciprestados, nas semanas dos seminários e das vocações, são importantes para mostrar aos jovens da Diocese que existem várias formas de construir um futuro que nos conduza a uma verdadeira felicidade, ao invés de seguirmos por caminhos escolhidos para nós por outros. Tendo em conta que todos são livres para fazer as suas escolhas, porque não pensar em formas de acompanhar jovens casais, casados ou não, para que possam aprofundar a sua fé e decidir mais conscientemente o seu futuro?


Que ideia tinhas e, agora, tens do Seminário? Que perceção têm os jovens dos Seminários Arquidiocesanos?
A ideia que eu tinha do Seminário é muito diferente daquilo que este realmente é. Lembro-me de imaginar que o Seminário seria uma comunidade pequena, composta por cinco ou seis seminaristas mais um ou dois padres, que seriam os formadores e que viviam de uma forma muito fechada relativamente à comunidade envolvente. Quando conheci a comunidade e me deparei com cerca de 40 seminaristas, foi uma surpresa. Mas talvez a surpresa maior tenha sido descobrir que muitos outros jovens tinham sentido o mesmo apelo que eu.
Hoje vejo o Seminário como uma exigente casa de formação, que possibilita formação em várias áreas, como por exemplo na dimensão espiritual, na vertente cultural, na dimensão humana, para além da componente académica. É também uma casa de oração e por isso desafia-nos a estar permanentemente em comunhão com Cristo.
O fato de a comunidade ser composta por um número considerável de pessoas, e algumas com idades díspares, possibilita uma importante aprendizagem de novas formas de estar e de pensar relativamente aos desafios quotidianos.
Por fim, também vejo o Seminário como um percurso para me dar alicerces para uma vida de entrega gratuita de nós mesmos, e não como um fim em si mesmo. Para nos ajudar a percorrer esse caminho de uma forma consciente, sóbria e responsável, podemos sempre contar com o apoio das equipas formadoras dos Seminários.   
 
 
Na paróquia, trabalhas com as crianças e os jovens. Quais são os maiores desafios que te colocam? Porque, um pouco por todo o lado, se estão a afastar da Igreja? Que podem fazer os jovens na evangelização dos jovens? Como despertar a participação?
O grande desafio que é colocado aos educadores na fé é apresentar Cristo como um caminho de felicidade, porque o relativismo e o individualismo, a desinformação (muito influenciada pelas redes sociais), o “achismo”, a ignorância, a falta de capacidade em assumir compromissos, etc., em que, cada vez mais, a sociedade vive, têm possibilitado esse afastamento das crianças e jovens da Igreja, sem esquecer que, mesmo demograficamente, a população do interior do país não está propriamente a crescer.
O que os jovens precisam de fazer é assumir com coragem, apesar de tudo o que, muitas vezes, ouvem, em vários ambientes, distorcida e erradamente, que viver cristãmente é uma opção válida, no caminho de felicidade que todos queremos trilhar. A melhor forma de o demonstrar é partilhar a alegria que sentimos no encontro com Cristo, ou seja, partilhar a alegria de quem deixa que Cristo fale através da sua vida.
 
 
Vives há três anos no Seminário Conciliar. Que balanço fazes da tua vida vocacional?
Têm sido três anos de descoberta permanente. Sinto que o Seminário tem contribuído para iluminar o apelo que sentia, quando resolvi abrir para mim a possibilidade de ser padre. As metas que, inicialmente, pareciam insuperáveis foram sendo ultrapassadas. Com a ajuda de todos os professores, formadores e diretor espiritual foi possível dar passos firmes e seguros na caminhada vocacional, mas o caminho ainda é longo. Por isso, resta-me viver dia após dia com a confiança em Deus e no que me é pedido e responsabilidade em tudo o que faço.
 
 
Quais têm sido os contentamentos e desafios da vida comunitária? Como te sentiste na tua prestação no teatro? Como encaras a vida espiritual?
A vida comunitária possibilita viver a partilha de nós mesmos para com todos e não apenas com aqueles com quem temos maior afinidade. Existe uma espécie de reaprender a viver para todos os que nos rodeiam e não apenas para alguns. O maior desafio da vida comunitária é conciliar a formar de ser, estar e pensar de quase cinquenta pessoas que vêm de contextos sociais diferentes. Isso só é possível através de uma “dádiva” de si mesmo em função do melhor para o meu próximo e para a comunidade, sempre numa linha de generosidade.
Pertenço ao Grupo de Teatro de Bouro desde a sua origem, há cerca de 12 anos. O teatro é uma das minhas “paixões” e ter tido a possibilidade de pertencer ao Grupo de Teatro de São João Bosco, com 50 anos de história, foi uma grande honra. Também aí houve um crescimento, pelo contato com os meus colegas na representação e pelo belíssimo trabalho que o Professor José Miguel Braga tem desenvolvido no acompanhamento destes atores em discernimento.
Não há muito que “encarar” na vida espiritual, mas há muito que viver. É um dos pilares da vida do Seminário e creio que se houvesse, da parte de todos, uma maior preocupação com esta dimensão, procurando algum acompanhamento, poderíamos prevenir alguns problemas na nossa vida. Em termos pessoais, o acompanhamento que faço com o Pe. Agostinho Tavares tem-me permitido olhar para a vida com mais serenidade e confiança, questionando sempre os propósitos da minha caminhada vocacional.
 

Frequentaste o Pré-Seminário para fazer o discernimento vocacional. Que ideias tinhas dele? Aconselharias a um colega teu? Porquê?
Reconheço que, quando frequentei o Pré-Seminário, já tinha tomado a minha decisão pessoal de entrar para o Seminário, se me fosse possível. Mesmo assim, a minha expectativa com o Pré-Seminário era conhecer a realidade Seminário, os seminaristas e as suas rotinas diárias. Já tinha procurado informação sobre o Pré-Seminário na internet, mas não tinha encontrado. Quem me dera ter acesso, na altura, a um site como o FazSentido, para poder responder a muitas das minhas dúvidas. As minhas expectativas foram cumpridas nos encontros em que participei e por isso recomendaria, sem qualquer dúvida, o Pré-Seminário a um amigo, ou a qualquer outra pessoa que se possa sentir chamada a “algo mais” na sua vida.
 

O que mais valorizas do Pré-Seminário? O que seria bom desenvolver?
Os testemunhos de pessoas que passaram pela mesma fase de discernimento, como por exemplo padres mais velhos, novos ou os seminaristas são importantes porque muitas das questões que levantaram no seu discernimento são as mesmas que os pré-seminaristas levantam. Outro aspeto relevante é a possibilidade de conhecer a comunidade e de partilhar as refeições, por assim ser possível uma relação de proximidade entre a comunidade e os pré-seminaristas.
Sobre o que seria bom desenvolver, poderíamos pensar numa forma de envolver os pré-seminaristas numa atividade da comunidade, por exemplo no Natal e/ou na Páscoa. No Natal, poderia ser na festa da Sagrada Família, convidando mesmo a família dos pré-seminaristas. Esta seria uma forma de envolver, ainda mais, as famílias nas suas escolhas vocacionais.
 
 
Os Seminários Arquidiocesanos parecem-te próximos das comunidades paroquiais?
Sim, na medida em que são propostas muitas atividades, não só religiosas, mas também culturais; no entanto, em termos religiosos, o Seminário Conciliar São Pedro e São Paulo celebra em conjunto com a comunidade envolvente a eucaristia dominical, procurando realizar uma caminhada de fé que se torna mais comprometida no Advento e na Quaresma. Mas por vezes também pode ser difícil chegar à comunidade crente, porque os Seminários estão inseridos no contexto de vida urbana que, pela sua agitação e dimensão, não facilita a aproximação.
 

Que mensagem deixarias a quem ler esta entrevista?
Em primeiro lugar, quero pedir a todos para não terem medo de se assumirem como cristãos e viverem como tal. Vivam a vossa vocação com coragem e alegria. Penso que viver a vocação é ter a coragem de deixar que Deus também participe das escolhas que fazemos para a nossa vida, confiando que podemos ser felizes através do amor e serviço ao nosso próximo.
Quero também dizer a todos aqueles que se sentem chamados a uma vocação sacerdotal, para não se deixarem influenciar pela muita desinformação e desconhecimento que existe sobre esta forma de responder ao amor de Deus. Se se sentem chamados, não devem ter receio de partilhar isso com os vossos párocos. Hoje, existem vários instrumentos que nos podem ajudar no discernimento vocacional. O Pré-seminário é um deles.
Por fim, apenas quero referir que nunca é tarde para decidirmos fazer o que é melhor para nós. Seja qual for o caminho que decidimos seguir, há duas máximas de Santo Inácio de Loyola que partilho convosco e que procuro que sejam uma realidade na minha vida: “Em tudo amar e servir”; “Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”.

Pré-Seminário Jovem/Adulto