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Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

"Muitas vezes, interrogo-me se a linguagem da Igreja se adapta aos desejos e anseios da psicologia dos jovens. Os jovens procuram respostas para as suas necessidades presentes e o discurso da Igreja aponta para a satisfação das necessidades futuras. Penso que este é o grande problema e por isso creio que teremos de eliminar este desfasamento na linguagem da Igreja, pois Deus veio para salvar cada homem no seu dia-a-dia – e não só em momentos chave da sua passagem pela terra: baptizados, comunhões, crismas, casamentos, funerais, etc…"

Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

Pré-Seminário

31 de Maio de 2017


Diác. Fernando Machado

 

A hierarquia da Igreja desafiada a ouvir a voz dos fiéis,

a realidade dos jovens

O Documento Preparatório para a XV Assembleia Geral Ordinárias dos Bispos, que se dedicará ao tema Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, termina com um questionário, cuja finalidade é como nele se lê: «ajudar os Organismos que têm direito, a expressar a sua compreensão acerca do mundo juvenil e a ler a sua experiência de acompanhamento vocacional, tendo em vista a coleta de elementos para a redação do Documento de trabalho, ou Instrumentum laboris.» Parece-te importante esta metodologia de trabalho, que corresponsabiliza todos os fiéis e não apenas os bispos? Como promover a colaboração do maior número de pessoas no sentido de se redigir um bom Instrumentum laboris?
Torna-se cada vez mais necessário que a hierarquia da Igreja ouça a voz dos fiéis. Eles são a maioria na Igreja, sem uma atitude de aproximação como pode a Igreja pode inteirar-se das motivações, preocupações, aspirações e do quotidiano da vida das pessoas, crianças, jovens e adultos? É imperativo que o faça, de outro modo a Igreja corre o risco de ter uma linguagem desajustada da vida concreta dos seus fiéis e assim de abrir um fosso perigoso.
 
Em ordem a interpretar a tua situação concreta, quer da tua paróquia de origem, quer das paróquias onde neste momento desenvolves o estágio pastoral, procura agora exercer o teu discernimento. De que modo ouves a realidade dos jovens?
Os jovens são por natureza pessoas abertas à experiência, gostam da novidade. Eles gostam de ser valorizados e gostam de abraçar causas e desafios com os quais se identificam, seja pelos valores cristãos que lhes foram transmitidos na infância e adolescência, seja porque naturalmente os (co)movem as pequenas grandes causas.
 
Quais são os principais desafios e quais as oportunidades mais significativas para os jovens?
Os grandes desafios dos jovens passam pela sua integração na sociedade actual. Uma sociedade profundamente competitiva, onde se apregoa ao individualismo, uma sociedade que gera o egocentrismo, sem lugar para os mais frágeis leva a que, desde cedo, as crianças sejam incentivadas a serem bem-sucedidas no âmbito escolar ou noutras actividades ocupacionais. A formação religiosa das crianças, por exemplo, deixou de ter relevo nas opções educativas dos pais na hora de escolherem o projeto formativo dos seus filhos. Este é o maior desafio que a sociedade do nosso tempo coloca.

 

Lugares de agregação juvenil dentro e fora da Igreja

Que tipos e lugares de agregação juvenil, institucionais e não, têm maior sucesso dentro do âmbito eclesial, e porquê? E fora do âmbito eclesial?
Cada vez mais são menos os jovens que procuram o seu envolvimento na vida das comunidades. Da minha experiência, a maior parte das vezes isto acontece por falta de transmissão dessa forma de se sentirem comunidade por parte dos pais, pois estes muitas vezes já vivem alheados da vida regular da comunidade cristã. Prevalece apenas o recurso à Igreja na hora da celebração dos sacramentos, mais por imperativos de sociabilidade e de assegurar eventuais necessidades do que propriamente de prática religiosa. Contudo, constato que os jovens até são capazes de responder ao convite esporádico para participarem em atividades da comunidade. Verifica-se, todavia, uma grande dificuldade num compromisso mais prolongado. 

 

O que pedem os jovens e onde encontrá-los

O que pedem concretamente os jovens dessas comunidades à Igreja hoje?
Numa primeira apreciação, poder-se-á dizer que a esmagadora maioria dos jovens, tal como os adultos, procuram a celebração dos sacramentos como requisito ‘curricular’ para posteriores necessidades.
 
Que espaços de participação ocupam os jovens na vida das comunidades eclesiais? Como e onde conseguis encontrar os jovens que não frequentam os vossos ambientes eclesiais?
Muitas vezes, interrogo-me se a linguagem da Igreja se adapta aos desejos e anseios da psicologia dos jovens. Os jovens procuram respostas para as suas necessidades presentes e o discurso da Igreja aponta para a satisfação das necessidades futuras. Penso que este é o grande problema e por isso creio que teremos de eliminar este desfasamento na linguagem da Igreja, pois Deus veio para salvar cada homem no seu dia-a-dia – e não só em momentos chave da sua passagem pela terra: baptizados, comunhões, crismas, casamentos, funerais, etc…

 

As famílias no discernimento vocacional dos jovens

e impacto do mundo digital

No questionário existe também um bloco de perguntas relacionadas com a pastoral juvenil vocacional. Tenta responder a algumas. Eis a primeira: Qual é a participação das famílias e das comunidades no discernimento vocacional dos jovens?
Na sociedade atual, saberão as famílias distinguir uma profissão de uma vocação? E as que sabem, em que aspetos apostam, quando se trata da educação dos filhos? Parece-me que apostam antes de mais na educação escolar, aquela que proporciona o canudo para que os filhos sejam bem-sucedidos na sua vida profissional, só depois aparece a formação da dimensão afetiva dos filhos e o consequente discernimento vocacional.
 
De que modo avalias a mudança cultural determinada pelo desenvolvimento do mundo digital? Que reflexos poderá ter quanto ao discernimento vocacional?
O mundo digital proporciona-nos um conjunto de ferramentas que possibilitam a divulgação de eventos, atividades e ideias que podem ser vistas por milhares de pessoas. Podem, inclusive, se bem utilizadas, servir para mostrar outras realidades e dimensões da vida que de outra forma ficariam se não esquecidas pelo menos limitadas a grupos específicos. No que diz respeito ao discernimento vocacional, as redes podem ser ferramentas importantes, sobretudo para aqueles que, alguma vez ou de algum modo, procuram algum saber para além daquilo que lhes é proporcionado pela família ou pela comunidade. Note-se, todavia, que os lugares próprios para os jovens fazerem o seu discernimento vocacional são a família e a comunidade.

 

JMJ, outros eventos, e dinâmicas dos acompanhadores

De que maneira as Jornadas Mundiais da Juventude ou outros eventos nacionais ou internacionais conseguem entrar na prática pastoral ordinária?
Creio que as Jornadas Mundiais da Juventude e eventos similares poderão desempenhar um papel importante na vida dos que neles participam, assim como na vida das suas comunidades. Se os jovens, com a respetiva antecedência, começam a preparação do evento e a tomada consciência do que se espera quer do evento, quer de cada um deles, com certeza que podem ser – e serão, com certeza – uma mais-valia na vida das suas comunidades na medida em que regressem renovados, entusiasmados e encorajados por outros que partilham a mesma experiência de fé.
 
Por fim, em relação aos ‘acompanhadores’, que tempos e espaços dedicam os pastores e os outros educadores ao acompanhamento espiritual pessoal? E que iniciativas e caminhos de formação são postos em prática para os acompanhadores vocacionais?
Sobre este assunto, penso que tanto os agentes pastorais preparados para essas funções como os fiéis têm um longo caminho a percorrer. Esta dimensão da vida pastoral paroquial ainda é desconhecida da esmagadora maioria dos nossos cristãos.

 

Prioridades para promover o discernimento vocacional dos jovens

Pressentes que o discernimento que fizeste para responder, além de te corresponsabilizar numa matéria tão delicada e premente, te deu outra visão sobre a mesma? Se te pedissem agora para enumerar três prioridades, em ordem a promover entre os jovens o discernimento vocacional, quais seriam?
O discernimento é constante. Ainda hoje, continuo a procurar aquilo que Deus tem para me dizer em cada acontecimento da vida. Sim, porque Deus não nos sopra ao ouvido, à semelhança de quem nos quer contar algum segredo. Tenho consciência de que, dia após dia, a minha relação com Deus é maior, como se de um amigo se tratasse. E quanto maior é a relação com um amigo, maior é o grau de conhecimento existente...
Estou convicto de que o período de discernimento vocacional proporcionou-me um maior conhecimento de mim mesmo, levando-me a agir com maior liberdade e, portanto, maior responsabilidade. Mesmo perante as dificuldades, que são uma constante na vida do homem, sinto-me fortalecido, determinado, sendo certo que em cada circunstância necessito sempre de um tempo de reflexão e ponderação. 

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