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Peregrinação a Santiago de Compostela do Quinto Ano do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo

Caminho: o pragmatismo do nómada

Caminho: o pragmatismo do nómada

Peregrinação Santiago Compostela

12 de Julho de 2019

Caminho e não estrada

Mais fogo que distância, mais movimento que percurso, mais trânsito que lugar.
Antes caminho que estrada, intensidade que paragem, porque assim nos desvela a etimologia das palavras, dado que a um caminho corresponde a transitividade de “estar a” [caminho] e não a permanência de quem se detém em “estar na” [estrada]. De facto, ver o caminho [κ?μινος], na sua origem, como forno e calor, reduz verdadeiramente a cinzas as nossas intenções de fantasia e bucolismo, de idealismo e narcisismo, substituindo-as por um exercício pragmático do coração que nos ensina a urgência das decisões e o engano de impasses e dilemas:
Livrai-nos senhor do idealismo de horários e de estabilidade que nos cega.
Livrai-nos da chegada que não promete outro caminho.
Livrai-nos do esquecimento da partida quando se encurta o destino.
 
Livrai-nos da idolatria da paisagem quando não nos deixa seguir.
Livrai-nos da retenção do horizonte, da força bruta que não vê limites e os esconde.
 
Livrai-nos da domesticação do mundo e dos percursos.
Livrai-nos de receitas e desfuturos
 
Dai-nos o chão
Dai-nos o encobrimento por Sol
Dai-nos o coração
Promete-nos a errância
Ensina-nos a chegar
 
O regresso do nómada
No entanto, é a nossa condição de nómadas que nos confirma na pragmaticidade do caminho. Na verdade, não será por acaso que as comunidades primitivas subsistiam sem prisões ou densos códigos morais, como surgiram em sociedades imperiais de idade antiga com a Romana, mas antes através de laços relacionais profundos entre os membros. Porém, porque não se deixa prender à lógica da tribo, o peregrino ensaia, a cada passo, o regresso à cidade. E, surpreendentemente, quanto mais próximo está da chegada, mais perto se encontra do retorno. Não se chega ao abraço sem primeiro se passar pelo pórtico, pois chegar é entrar/começar de novo, visto que o que até aqui se incendiou está mais ligado ao tempo que ao espaço e, assim, aos instantes que ainda nos faltam.

João Basto