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João Cerqueira

Confiar, Escutar e Viver!

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Grande Entrevista

04 de Julho de 2019

João Cerqueira, o Papa Francisco refere, na Exortação Apostólica pós-sinodal Christus vivit, que escreve aos jovens cristãos «com afeto» (n.3), a partir de «algumas convicções da nossa fé» e que «encoraja a crescer na santidade e no compromisso em prol da própria vocação» (n.3). Parece-te importante o afeto para desenvolver a relação com os jovens? Continuará a fazer sentido relacionar convicções de fé, santidade, compromisso e vocação? 
João: Parece-me que o afeto é o meio mais eficaz para fazer chegar qualquer mensagem aos jovens e ao mundo. Cristo deixa-nos o mote para esta relação quando diz: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; como vos amei” (Jo 13, 34). Também Santo Agostinho corrobora a ideia de que a afetividade encoraja os jovens a crescer em santidade, dizendo-nos: “Ama e faz o que quiseres”. Anunciar aos jovens um caminho vocacional, um caminho de entrega e de santidade, concretiza-se na forma como vivemos o mandamento do amor e as convicções da nossa fé. Viver com afeto é viver, ainda, com mais verdade, não será? 
É importante, e faz todo o sentido, relacionar fé, santidade, compromisso e vocação, pois a fé compreende-se melhor nos compromissos. E é também pela fé que somos chamados a ser. Quando nos comprometermos com o amor, alcançamos a santidade. Conseguir alcançar tudo isto no presente século pode parecer-nos uma utopia. E, como nos diz o Papa no n.1, estar vivo é estar atento, confiar, amar, cuidar. Quando estamos presentes no mundo, sofrendo quando ele sofre e alegrando-nos quando há alegria, comungamos da sua santidade. Manifestamos a fé que nos move e vivemos a vocação a que Cristo, servindo-se das nossas faculdades físicas, espirituais, psíquicas, nos chama individualmente. Ele chama-nos a vivermos no nosso tempo e, como tal, a sua mensagem é intemporal.
 
 
Ainda no n. 3, o Papa Francisco deixa bem claro que a sua Exortação não é apenas para os jovens, mas também para todo o Povo de Deus, na medida em que «a reflexão sobre os jovens e para os jovens nos interpela e estimula a todos nós». Parece-te bem esta perspetiva sinodal? Porquê? 
João: Esta perspetiva revela claramente que pensamos o futuro alicerçados no passado. Além disso é, de igual modo, indispensável o contributo da experiência neste viver da fé e na descoberta do nosso próprio caminho. Sem dúvida, experiência esta representada na cultura de um povo que já viveu, ou seja, do nosso passado, confiando na ação de Deus em nós que, embora, por vezes, pareça estar ausente, não está. Muitas das vezes, somos nós que estamos longe do seu amor, como diz Santo Agostinho “Eis que habitáveis dentro de mim, e eu la fora a procurar-vos” (confissões X, 27). 
É evidente que a reflexão cresce, em primeiro lugar, no seio familiar, que tem um papel fundamental, pois conhece os seus jovens e procura educá-los, transmitindo-lhes os valores cristãos. Seguidamente, todo o cristão é chamado a testemunhar no seu dia a dia a fé que professa. Na reflexão sobre a fé, cada um deve procurar saber se conseguiu transmiti-la, de forma convincente, aos jovens. Com esta atitude, todos nós refletimos e contribuímos para o futuro da fé. Assim sendo, se cada um de nós se preocupar com seu crescimento individual e com seu contributo para o crescimento dos outros na fé, esta proposta sinodal tem todo um sentido racional.
 
 
Mais, ele diz que, na sua carta (cf. n.4), se deixou inspirar pelas reflexões e diálogos do Sínodo dedicado aos jovens, que teve por tema «os jovens, a fé e o discernimento vocacional». Tendo presentes as conclusões do Documento final, parece-te que ele acentuou as propostas «mais significativas»? Se tu tivesses de salientar uma, qual seria? 
João: Considero que, na elaboração desta exortação apostólica, o Papa Francisco focou os aspetos mais significativos do Documento final. Destaco o n.41, no qual pede uma Igreja que escute, que esteja atenta aos jovens, sem deixar de ser humilde e sincera. Pede ainda que a Igreja deixe os jovens sonhar, ponto que considero essencial na medida em que uma Igreja que proíbe de sonhar é uma Igreja fechada em si. Não posso deixar de salientar que, mesmo servindo a verdade do Evangelho, a Igreja deve ter a consciência de que pode não o ter compreendido plenamente em algum ponto e, como tal, revela-se importante a escuta atenta dos sinais dos tempos e à voz do Espírito Santo, que atua no mundo.

 
Que opinião desenvolveste sobre a realização do Sínodo? Parece-te que foi bom ter em conta as opiniões dos jovens, mesmo não crentes? Houve questões que despertaram em ti novas interrogações?
João: Considero o Sínodo um acontecimento muito importante para a vida da Igreja e que, a seu tempo, dará frutos. A Igreja deve adequar-se a certas circunstâncias da sociedade atual e, por isso, foi importante ouvir a opinião de todos, inclusive dos não crentes. Ao escutar a voz dos jovens, a Igreja tem a possibilidade de refletir sobre a sua presença no mundo e o modo como estes a veem. Sendo a Igreja constituída por homens e mulheres frágeis, não está livre de erros, como podemos constatar pela história, e deve ser impulsionadora de interrogações. 
Interrogo-me frequentemente sobre a falta de escuta na Igreja: não poderá ser uma manifestação das fragilidades sociais vividas nos nossos dias, como é o caso do consumismo, da crise dos refugiados, das guerras pelo poder, entre outras? Não terá a Igreja um papel fundamental na superação de todos estes conflitos, tornando-se um espaço de auscultação do mundo?
 
 
Quem mais contribuiu para que, no teu discernimento vocacional, se propusesse a possibilidade de um dia poderes servir comunidades como padre? E quem mais te colocou dificuldades?
João: O meu pároco, o Padre Moisés, contribuiu significativamente para que, no meu discernimento, fosse colocada a hipótese de vir ser padre e de servir as comunidades. Também os meus pais desempenharam um papel crucial neste meu discernimento, pois sempre me apoiaram. E não posso esquecer os meus amigos. Com pequenas palavras, mas de grande significado, eles vão-me presenteando com a sua amizade e carinho, dizendo-me: “João, confia”, “Vai”, “Escuta” e “Sente”. São palavras que recordo e agradeço. Não posso deixar prestar aqui um tributo à minha avó materna que, desde o meu nascimento, sempre cuidou de mim com a sua sabedoria e até com os seus receios iniciais, que não eram para dificultar o meu discernimento, mas para que o fizesse com as melhores motivações. Quando nos abrem portas para a verdade, as dúvidas não ofendem.
És natural de uma terra abençoada por Nossa Senhora da Paz. Segundo o relato das suas aparições, Nossa Senhora da Paz apareceu a um menino, Severino Alves, a 10 de maio de 1917, no Barral em S. João de Vila-Chã. Encaminhava-se para a ermida de Santa Marinha a fim de soltar as ovelhas, quando perto de lá, sobre uma ramada, apareceu num clarão a Virgem Maria, que se vestia de branco com um manto azul a cobrir-lhe a cabeça. E voltou a aparecer-lhe no dia seguinte. Acreditas nestas aparições? O facto de seres natural desta comunidade onde ela apareceu, tem influência na construção da tua fé e identidade? Qual foi a espiritualidade que se desenvolveu no santuário que lhe foi dedicado?
João: Sim, acredito! Estas aparições, embora contestadas por algumas pessoas, influenciaram, desde muito cedo, a minha vida e contribuíram para descoberta da minha vocação. No que se refere à espiritualidade, confesso que este Santuário é, para mim, um local de encontro com Cristo, mediado pela intercessão de sua e nossa Mãe.
É evidente que o facto de a minha terra ter sido “abençoada por Nossa Senhora da Paz” teve uma influência significativa na construção da minha identidade e da minha fé, pois, desde criança, tive a oportunidade de testemunhar esta fé que tantas pessoas depositam nas aparições.Talvez tudo tivesse sido diferente se não tivesse nascido aqui, uma vez que acredito que a fé é contagiante.
A espiritualidade desenvolvida no santuário é a de Nossa Senhora como medianeira do povo, ela que leva os nossos pedidos ao seu filho que nada lhe nega e sempre a honra, segundo a oração da “estrelinha do céu”, que a Senhora pediu que as pessoas rezassem. A devoção ao terço está também enraizada neste lugar, bem como na vida das pessoas que por ali passam. Cada pessoa tem uma forma própria de manifestar a sua gratidão a Nossa Senhora por esta ter mediado um pedido. Surpreende-me, de forma positiva, constatar que o povo procura fervorosamente uma Igreja que escute, e penso que aqui encontram este sentido que o Papa hoje nos pede - a escuta.
Como se constata, isso terá acontecido nos dias anteriores às aparições em Fátima. Parece-te que a senhora do Barral caminha na ‘sobra de Fátima’? O pe. Avelino de Jesus da Costa, professor catedrático de História, na Universidade de Coimbra, e membro da Academia de História de Portugal, tinha-lhe grande devoção. Em que te inspira, se é que isso acontece, a sua profunda ‘crença’ nas aparições e mensagem da Senhora da Paz? Será uma mensagem que possa ser desenvolvida com os jovens? Como?
João: Não me parece que as aparições do Barral devam ser consideradas a “sobra de Fátima”. Defendo que, uma vez que surgiram em circunstâncias históricas, culturais e demográficas semelhantes, ambas se enriquecem e, por isso, não as devemos distanciar com graus de importância. As semelhanças são visíveis e próximas: nas duas aparições é pedida a oração do terço, em ambas a Senhora pede que não tenham medo. Não se trata de “sobra”, mas de “completude”.
A devoção do Pe. Avelino enternece-me e inspira-me, pois dá-nos a conhecer a mensagem de Paz deixada por Nossa Senhora ao pastorinho Severino Alves. E esta mensagem é intemporal, faz hoje tanto sentido como fazia em 1917. Embora não vivamos num contexto de guerra mundial, temos guerras em diferentes partes do mundo, a guerra dos problemas sociais e ecológicos. E, face a isto, é natural que esta profunda crença se revele inspiradora para muitas pessoas. Atualmente, o mundo necessita tanto de conversão como necessitava há 102 anos atrás.
Acredito que esta mensagem possa ser desenvolvida com e para os jovens, que estes assumam como compromisso rezar e trabalhar pela paz no mundo. E que, assim, cresçam na santidade, guiados por esta mensagem de paz. Acredito que os jovens são capazes de escutar e de interpretar todas estas coisas, se lhas dermos a conhecer. Por isso, está nas mãos dos transmissores desta mensagem o modo como os jovens encaram a fé. Deixo-lhe aqui um apelo: que valorizem as aparições do Barral como um acontecimento digno de ser acreditado! Que toda esta devoção Mariana sirva para enriquecer a sua fé e para os ajudar a alcançar o sentido deste grande mistério.
 
Quando chegaste ao Seminário Conciliar de Braga, estudavas numa sala onde se encontra grande parte da biblioteca do Pe. Avelino de Jesus da Costa, com pedras quartzíticas por ele trazidas do Barral e outros seus pertences pessoais, como as malas de viagens e da universidade? Como te sentias a estudar nessa sala? Conta-nos a história desse tipo de pedras, que aliás são muito abundantes no santuário da Senhora da Paz.
João: Sim, confesso que, quando cheguei ao Seminário, fiquei agradavelmente surpreendido quando me deparei com a relevância e o carinho com que são tratados os pertences do Pe. Avelino Jesus da Costa, expostos num belíssimo espaço onde tenho o privilégio de estudar. Como não possuía grande conhecimento nem da história nem do grande trabalho realizado em prol das aparições do Barral, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais da sua vida e do seu trabalho, bem como da sua devoção às aparições do Barral. Inspirou-me, confesso, pela sua fé e dedicação, tanto às aparições do Barral, como aos trabalhos que realizou no âmbito da História. 
Relativamente às pedras quartzíticas, estas são abundantes no santuário de Nossa Senhora da Paz e são provenientes de três grandes explorações da região. Estas preciosidades têm um enorme valor simbólico para as gentes de Vila Chã S. João Baptista, pois foram, durante longos anos, fonte de sustento dos que trabalhavam nestas explorações. As que foram colocadas na capelinha e nos demais espaços como, por exemplo, na Cripta e igreja do Imaculado Coração de Maria, foram doadas por alguns devotos. Penso que são uma forma de o povo de Vila Chã S. João manifestar a sua fé para com Nossa Senhora da Paz.

 
Tu também ainda soltas ovelhas, como o Severino Alves. E soltas cavalos, não é? Apresenta-nos os cavalos que fazem parte da economia da tua família? Que rituais tinhas com eles?
João: Por acaso as ovelhas também fazem parte da economia familiar. E também os cavalos, embora em menor número. Desde tenra idade que os cavalos fizeram parte do quotidiano e que se inserem no ambiente campestre em que nasci. 
Este ritual de “soltar os cavalos” é como que uma tradição familiar que remonta ao meu bisavô. Naquela época, os cavalos eram soltos na serra, desde meados de março até fins de setembro. Esta tradição deve-se a dois fatores: o respeito pelas caraterísticas selvagens dos cavalos garranos, que gostam de liberdade, e às condições meteorológicas que, nestes meses, são geralmente propícias aos animais, uma vez que lhes permitem pastar “noite e dia”. Como é evidente, esta tradição de “soltar os cavalos” é perfeitamente justificada.
 
Neste momento, os protagonistas deste cenário são a Estrela, a Andorinha, a Gaiata, o Mantorras, o Saltador e os potros mais novos. Por estas alturas, encontram-se “livres”, mas não dos olhos de quem os vigia frequentemente, a minha mãe. Com toda esta vigilância até parece que nada lhes pode acontecer. Mas, na verdade, há motivos para preocupações, pois, por esta altura, devido à vulnerabilidade das crias dos cavalos e de outros animais, são comuns os ataques do lobo ibérico. Este torna-se o principal inimigo do equilíbrio económico das famílias e uma ameaça para os habitantes desta região, que vivem em constante sobressalto com receio de encontros menos felizes, “de arrepiar a espinha”, como são retratados.
 
 
 
 
Voltando ao tema do Sínodo e às considerações do Papa Francisco na Exortação Christus vivit, tendo presente o que a experiência te fez desenvolver desde criança, passando pelo Seminário de Viana do Castelo e, agora, no Seminário Conciliar, que palavras gostarias de deixar aos jovens da tua idade em relação ao discernimento vocacional? 
João: O discernimento vocacional é algo a que, ao longo das diferentes etapas da nossa vida, todos somos chamados a realizar. Não nos devemos deixar habitar pelo sentimento de medo, pois a coragem de arriscar é aquilo que nos define. Não devemos ficar amarrados ao ‘agora’, mas perspetivar o futuro, deixar para trás aquela atitude de ver na Igreja um vazio, como expressa o Papa no n.39. Pelo contrário, devemos procurar encontrar nela a aprazível mensagem de Cristo. “Confia”, pois Ele tem um caminho para cada um de nós e, embora por vezes não nos pareça, Ele está sempre connosco. Veja-se o exemplo de santo Agostinho que, depois de uma juventude conturbada, finalmente descobre que Deus sempre esteve com ele e afirma: “Tão tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova” (confissões X, 27). 
Este caminho é trilhado num mundo habitado por inúmeras distrações que nos retiram a nossa individualidade, que nos seduzem, dando-nos uma sensação errada de uma liberdade que não passa de um mero devaneio. Não acredito que algum de nós queira viver sem se conhecer a si próprio e sem conhecer a verdade. Podemos constatar nos números 71 a 76 que são muitos os problemas que vivemos atualmente: “meninos-bomba, gangues…”, “jovens que padecem de marginalização” e muitos outros exemplos… Optei por referir estes porque sei que muitos de nós vivem iludidos por uma vida de diversão que, embora também faça falta, nos impede de ver os problemas reais da sociedade que, muitas das vezes, estão tão perto de nós.
Não somos jovens acidentados pela casualidade, mas movidos por causas. Somos jovens que confiam na verdadeira fonte de felicidade, que querem viver a vida com que sonham de forma autêntica, que lutam por esses sonhos e que, acima de tudo, querem transformar a sua vida em dom para o mundo.
 

Faz Sentido - Seminário Arquidiocesano de Braga