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"Na noite lunar que se gerou nas nossas vidas, ambos ficamos a saber que estávamos desprevenidos para este acaso, que os nossos muros transbordaram e que desejam não ser um limite, mas um abraço."

Disse

Disse

Voluntariado

07 de Novembro de 2018

Disse-me o Toni, quando me viu pela primeira vez: “Tenho saudades tuas”. Sabia que não me conhecia, que nunca me tinha visto, sabia bem o significado da saudade, como palavra entranhada no seu corpo. Sabia que a palavra “saudade” não traz consigo abandono, afastamento, mas caminho, início, abertura e liberdade. A soltura da voz vinha acompanhada pelo rasgamento do espaço, os seus olhos penetraram os meus, e dois corpos eternizaram a espera de se encontrarem.

Na noite lunar que se gerou nas nossas vidas, ambos ficamos a saber que estávamos desprevenidos para este acaso, que os nossos muros transbordaram e que desejam não ser um limite, mas um abraço. Nos dias que se seguiram, a casa S. João de Deus tornou-se num mar agitado, onde a consolação, a surpresa, a dificuldade e o espanto cresciam dentro de mim e em todos os rostos que encontrava. Saudade tinha-se tornado a palavra que iniciava tudo, cada momento, cada desilusão… entravam nela mais nomes, o Firo, o Edgar, o Padre Alberto, o Paulinho, o Zé. Ir com o Paulinho à missa era um exercício cómico e paciente, ele não queria deixar a igreja, levava-nos por portas diferentes, que conhecia bem, para poder beijar outras paragens com a mesma ternura com que me beijava o rosto. O Zé guardava para si revistas onde navegava com carros e mulheres. O Firinho cantava, longamente, à sua Rosinha, como se a esperasse todos os dias pela primeira vez. O Edgar evocava outros nomes e guardava os nossos para os lembrar a outros. O Padre Alberto, que nos acompanhou, gargalhava ao olhar para as nossas alegrias e os nossos medos.

Estou com a impressão de que estive num jardim, algures num lugar distante… cada sorriso, cada abraço, cada beijo, cada esgar era uma flor diferente, de diferentes cores e idades. Colhia, atirava ao vento do meu peito e logo nasciam mais, com cores novas, ganhando parentesco comigo e com algo mais misterioso que, no silêncio, ali se passava. E o banco do jardim esperava-me, porque afinal de contas o que era eu ali? Apenas alguém que se senta no banco para olhar, falar, estar, silenciar-se com as flores e deixar-se colorar.

Os meus pés voltaram à terra, os meus olhos desceram e as minhas mãos abriram-se… Isto de ser homem é difícil, talvez porque não saibamos o que é ser homem. É, certamente, muito mais do que aquilo que nos querem fazer entrever. Aprenderás sempre, tens é que querer ver sempre.

“Aprende / A não esperar por ti pois não te encontrarás” (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Tenho saudades tuas…'

Rafael Cepa, 1º ano