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Do Furto ao Fruto

"Portanto, o peregrino, que se abeira de uma fonte de água, logo pode intuir que tudo aquilo de que dispomos foi-nos entregue como um dom."

Do Furto ao Fruto

Do Furto ao Fruto

Água

13 de Agosto de 2018

Nos lugares e nos ritmos mais elementares da nossa existência, a peregrinação, travessia de silêncios, desde sempre se apresenta como plenitude que rasga com a nossa ‘planitude’, porque não tem propriamente um fim, mas uma extraordinária finalidade: reconhecermo-nos reconhecidos, vivendo dentro do horizonte do dom.

Neste horizonte do dom, no caminho, sentido instituinte do ser peregrinante, somos agraciados com as mais diversas fontes de água, que são momento, ao mesmo tempo precário e sublime, agraciado e hospitaleiro, onde a posse cede, de novo, o lugar ao dom e o furto ao fruto. Aliás, sempre me fascinou a sintomática diferença entre um tanque e uma fonte. O tanque acumula, a fonte canaliza. O tanque é reservatório de água, a fonte é constante doação de água. O tanque enche, a fonte transborda. O tanque é indício de posse, a fonte é sinal de dom. A fonte está enxertada na dinâmica do não possuir para si, mas do dar no dar-se a si mesmo com o dom que se dá ao reconhecimento de um outro que da sua água bebe.

Portanto, o peregrino, que se abeira de uma fonte de água, logo pode intuir que tudo aquilo de que dispomos foi-nos entregue como um dom. Neste sentido, de modo certeiro, o filósofo Joshua Heschel escreve que «talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

A caminho de Santiago de Compostela, o peregrino, nas muitas fontes de água, pode não somente saborear melhor a água, mas também uma lição para a vida: há diferença entre dom e posse, porque esta será sempre solidão. Assim, apropriar-se do dom é negá-lo. A dinâmica do dom é assim como um afetuoso vaso de barro, que se quebra no momento em que o recebedor comece a considerá-lo como seu.

Pedro Sousa