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Bruno Pinto

Ele vive e quer-te vivo!

Ele vive e quer-te vivo!

Grande Entrevista

04 de Julho de 2019

Entrevista 

Bruno, que te fazem pensar as primeiras palavras que o Papa Francisco dirige aos jovens e a todo o povo de Deus, na recentemente publicada Exortação Apostólica pós-sinodal 
Christus vivit: «CRISTO VIVE: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo!» (n.1)?
Bruno: Podem entender-se estas primeiras palavras do Papa Francisco como um apelo veemente à ação corajosa, dinâmica e criativa dos jovens. Importa, portanto, que sejam testemunho vivo e transparente da alegria de viver em Cristo, de modo que possam levar outros jovens a caminhar na fé, visando vivificar e rejuvenescer as comunidades cristãs em que vivem.
Quanto a esta clara necessidade de traduzir em gestos a alegria de viver à luz da ressurreição, Friedrich Schiller, poeta e dramaturgo alemão, afirmou que «quem tiver ouvido a mensagem pascal não pode mais andar com rosto trágico nem levar uma existência de pessoa sem humor, que não tem esperança». Ora, é precisamente esta ideia que transparece da exclamação «Ele vive e quer-te vivo!». Trata-se, pois, de um grito esperançoso de quem vê nos jovens sementes frutíferas de futuro, que em mim, bem como em tantos jovens, deve manifestar-se como um chamamento a servir a Igreja com a vida, mas também a ajudar cada jovem a descobrir aquilo que Jesus quer de si.
Ainda antes de referir os motivos da sua exortação, ele prolonga as suas palavras de abertura, reforçando a confiança na proximidade de Jesus: «Está em ti, está contigo e jamais te deixa. Por mais que te possas afastar, junto de ti está o Ressuscitado, que te chama e espera por ti para recomeçar. Quando te sentires envelhecido pelatristeza, os rancores, os medos, as dúvidas ou os fracassos, Jesus estará a teu lado para tedevolver a força e a esperança» (n.2). Que sinais experimentas na tua vida que te fazem discernir a proximidade de Jesus?
Bruno: A juventude é por si só um amontoar de interrogações e ânsias, próprias de quem sente a necessidade de tomar opções e traçar o seu próprio caminho. Eu não sou nem nunca fui exceção. Vivi inúmeras inquietações que, ao procurar respostas, fizeram surgir novas questões, num ciclo constante… 
De uma coisa estou certo: por muito fortes que pensemos ser, nada conseguimos se caminhamos sós. E é neste sentido que a confiança na proximidade de Jesus é determinante, visto que, por diversas vezes, esta é a única forma possível de sermos escutados e de escutarmos o eco interior da vontade de Deus para nós. Muito concretamente, na minha vida tenho a oração e o contacto com a comunidade como sinais verdadeiros e autênticos da proximidade de Jesus, sinais estes que muitas vezes me devolveram alegria e esperança e em muito me ajudaram a crescer e a discernir.

No meio dos livros de estudos e nos trabalhos do vosso restaurante, quando ajudavas teus pais e tuas irmãs e servias os clientes, era possível encontrar Jesus? Lembras-te de situações que te deixaram a pensar um pouco mais?
Bruno: Recordo as palavras de um amigo sacerdote que frequentemente me dizia que a vivência do Evangelho deve iniciar-se no ambiente familiar e quotidiano. Talvez por isso, desde muito cedo tenha entendido a união da família nos labores do ofício como sendo já um sinal da presença de Jesus. É precisamente a certeza dessa presença que nos faz encontrar a força para, juntos, ganharmos o pão e superarmos o cansaço físico. Mesmo nas dificuldades e nos momentos de tristeza, esta manifesta-se como a grande motivação para continuar.
É claro que o contacto diário com um vasto número de pessoas exige uma certa disponibilidade para acolher, de forma cordial e paciente. Com efeito, procurei sempre estabelecer diálogo e mostrar-me prestável, o que levou a que muitas pessoas se sentissem à vontade para me colocar a comum questão: «Quando é que decides ir para o seminário?», ou então, «Já pensaste ser padre?», questões estas que revelavam uma certa esperança em mim e na minha atividade na paróquia e que eu encarava com um certo humor de quem pretende fugir à conversa, mas que, na verdade, me deixavam inquieto. Talvez fosse Jesus a falar-me por meio destas pessoas…

Na vida da paróquia, davas alguma colaboração? Parece-te importante que os jovens participem na experiência do evangelho em comunidade? Quais serão os dons que mais podem partilhar? 
Bruno: Sim, desde muito novo colaborei ativamente na vida da comunidade paroquial, nomeadamente enquanto coralista, acólito, leitor e, mais tarde, catequista. Reconheço que, com a experiência comunitária do evangelho, muito cresci e aprendi.
 
 
Quanto aos jovens, o Papa Francisco afirma (no n.º15 da Exortação) que é próprio destes «sonhar coisas grandes, procurar largos horizontes, atrever-se a mais, querer conquistar o mundo, ser capaz de aceitar propostas desafiantes e desejar contribuir com o melhor de si mesmos para construir algo melhor». Nesse sentido, espera-se dos jovens plena generosidade de vida, vigor, coragem, audácia, criatividade e sabedoria.
Considero que são estes os dons que mais podem partilhar e que a Igreja deles espera, para que as comunidades em que se inserem sejam imagem viva da juventude e alegria que brota da ressurreição de Jesus Cristo.

No final do 12º ano, entraste no Seminário Conciliar de Braga e frequentas agora o Tempo Propedêutico. Jesus iluminou tua decisão? Quem mais te ajudou? Que mais contribuiu para a tua confiança?
Bruno: Ao olhar o caminho que vou percorrendo, percebo que Deus se serviu de rostos, de pessoas, de momentos e de lugares para me dar sinais da sua vontade para mim, por isso penso que se algumas pessoas se não tivessem cruzado comigo e não me aconselhassem, talvez as minhas decisões tivessem sido bem diferentes. 
Julgo, portanto, que Jesus iluminou a minha decisão, quando me colocou, por exemplo, o meus párocos no meu caminho, os quais me levaram pela primeira vez a conhecer o seminário e a sua realidade e me foram acompanhando com toda a atenção e amizade. Acredito que Jesus me iluminou com a possibilidade de frequentar os encontros de pré-seminário - tão enriquecedores e desafiadores - e também na oportunidade de viver e arriscar o inesperado e a novidade que me era proposta.
Além disso, como referi anteriormente, Deus serve-se de momentos, que interpelam, inquietam e obrigam a refletir e eu tive sempre presente um episódio que me marcou: em abril de 2015, por ocasião do evento «Fafe: Terra Justa», a minha cidade recebeu a visita do cardeal hondurenho, D. Óscar Maradiaga, que no final da eucaristia tive a feliz oportunidade de cumprimentar, juntamente com dois outros acólitos. Neste momento, o próprio disse-nos que éramos como os discípulos de Emaús: «estão muito próximos dele no altar, basta reconhecê-lo no partir do pão», afirmou. Este é um exemplo como tantos outros que me levaram a procurar resposta para as minhas inquietações e que fundaram a minha confiança para poder tomar a decisão de entrar no seminário.

Como estás a viver a experiência dos inícios?O que será mais desafiador na vida comunitária? De onde nascem as maiores alegrias?
Bruno: Ainda é para mim uma descoberta constante… cada dia é uma oportunidade nova e única de experimentar e viver o inesperado de Deus. 
Talvez o mais desafiador seja mesmo a adaptação a um estilo e ritmo de vida muito diferente daquele que, até então, era o habitual. Mesmo assim, a experiência da vida em comunidade, nomeadamente a comunidade seminário, deu um novo sentido à forma como vivo e celebro a minha fé, porque propicia e realça o sentido de comunhão. Além disso, a união e a entreajuda tornam muito mais fácil superar as dificuldades que, porventura, possam surgir.
Já as maiores alegrias nascem claramente da partilha, da amizade entre os membros da comunidade, mas também do crescimento e enriquecimento nos domínios espiritual, intelectual, humano e pastoral.

Tens já um livro de poesia publicado. Conta-nos um pouco da história desse livro. Que poetas mais aprecias? Será que Deus se comunica através da poesia? 
Bruno: Entendo o meu livro como um espelho, mesmo que de papel, pois floresceu simplesmente daquilo que sou e vivo. «Antes das palavras, viver é o único poema», assim o intitulei como que a dizer da sua origem: tão somente a minha vida, a minha identidade. Fi-lo, portanto, da vivência que se desmonta e reconstrói em versos de doação e transparência. Tudo aconteceu pouco a pouco, mas com o apoio de muitos amigos, familiares, professores e também párocos.
O que é certo é que a poesia sempre fez parte da minha identidade: desde logo, porque nasci numa cidade fértil e abundante no que diz respeito à arte poética; também (curiosamente) porque fui batizado por um padre poeta; e porque cresci a ouvir os meus avós maternos falarem de um amigo que, mais tarde, viria a influenciar e acompanhar a minha produção poética, o cónego Valdemar Gonçalves. Quanto aos poetas que mais aprecio, destaco alguns de entre muitos outros nomes, como o de Sophia de Mello Breyner, Miguel Torga, D. António Couto, José Augusto Mourão…
Tenho a certeza de que Deus se comunica através da poesia, pois ela mesma é um rio de questões, de inquietações e provocações que implicam respostas, mais ou menos definidas, mas de todo pessoais. Exige, por isso, interiorização, concentração e disponibilidade - passos essenciais e característicos da oração e que propiciam o encontro com a vontade de Deus.

Como estás a pensar desenvolver os teus dons na área da literatura? Será possível desenvolver o tema de Deus como interrogação na poesia? O curso de Mestrado em Teologia poderá ajudar?
Bruno: A minha perspetiva é sempre a de crescimento e de clarificação. Penso apenas procurar a verdade e a transparência das palavras, visando transmitir uma mensagem clara e coesa ao leitor.
Considero que o tema de Deus como interrogação na poesia é, de todo, oportuno, visto que a poesia é uma forma criativa de questionar tudo o que existe na vida. Deus, porque faz parte dela, é também questionado não num sentido de ser posto à prova, mas de o descobrir e de o encontrar.

Deste modo, acredito vivamente que o curso de Mestrado em Teologia me possa ajudar, na medida em que, como já antes referi, me permite clarificar a fé e enriquecer culturalmente.
Voltando à Exortação Apostólica pós-sinodal Christus vivit, que expressões do Papa Francisco mais eco encontraram na tua leitura, enquanto jovem? Porquê a relevância que lhes atribuis? 
Bruno: Desde logo, a exortação desperta o desejo de ser jovem à semelhança de Jesus e, nesse sentido, confronta-nossucessivamente com diversas passagens bíblicas relativas à vivência da juventude.
Ora, tal preocupação afirma e confirma que os jovens não são apenas números ou ínfima parte de um todo, são antes membro vivo e fecundo, esperança não só do futuro, mas já do presente, do hoje - («Vós sois o agora de Deus»).
Além disso, é nítida a consciência das fragilidades, dos medos e das barreiras com que os jovens se deparam. Todavia, surge aqui Jesus como um amigo, fonte de vida e de vigor, que providencia o necessário para caminho e, para cada um, delineia um projeto. Talvez tenha sido esta uma das ideias que mais eco teve na minha leitura: Jesus, o amigo de todas as horas e momentos, dá a cada um não «um carisma extraordinário ou raro», mas algo que será à sua medida, isto é, «a medida de toda a vida» (n.º288).
Sinto-me, pois, interpelado e impelido a viver o meu discernimento vocacional como um dom que recebo e que, em vida e ação, devo partilhar.

Imagina-te agora a escrever aos jovens, nomeadamente àqueles que tu conheces e tens por amigos. Em ordem a discernir bem a sua vocação, que exortações lhes farias? 
Bruno: As minhas palavras são as de quem, como eles, caminha na estrada da vida, procurando o sinal do caminho para a felicidade com Deus.
De que serve uma vida jovem, cheia de vigor ainda, mas que fica parada a ver passar o tempo soturno e monótono? A Igreja espera de nós, jovens, sobretudo este vigor, coragem e alegria traduzidos em gestos, em ações. Não queiramos ser apenas espectadores, mas personagens ativas e determinantes no desenrolar da história.
Se somos capazes? Sim, claro, se existir a verdadeira confiança. Não nascemos capacitados, mas Deus providencia o necessário para o seguirmos, dá-nos uma missão à nossa medida. Por isso, é importante que estejamos disponíveis para acolher a vontade de Deus e também que a saibamos viver com generosidade.
Onde está, então, o segredo para a vivência plena da juventude? O Papa Francisco responde com clareza: «a verdadeira juventude é ter um coração capaz de amar» (n.º13). Creio que não haverá missão mais bela e feliz!
Espero que, neste caminho, tenhais sempre presentes três pontos cardeais indispensáveis para um processo de discernimento vocacional autêntico: a disponibilidade, a confiança e a generosidade.
 

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